Povo Cinta Larga relata problemas
e rechaça acusações dos invasores de sua terra
O Povo Cinta Larga, durante a visita do relator nacional de direitos
humanos e meio ambiente, Jean-Pierre Leroy, acompanhado
de outras personalidades, à aldeia Roosevelt, em Rondônia, nos dias
16 e 17 de novembro, expõe mais uma vez os seus problemas, a critica
situação deixada pelos garimpeiros, e denuncia como infundadas e mentirosas
as acusações veiculadas por jornais do norte do país nas últimas semanas,
segundo as quais os índios teriam assassinado alguns invasores de suas
terras. As lideranças rechaçam essa campanha caluniosa promovida por
todos aqueles interessados em retomar a exploração ilegal de mineiros
na terra indígena. Reproduzimos, a seguir, trechos do relato apresentado
pelo líder Nacoça Piu Cinta Larga.
”Quando tivemos contato com o branco achamos que seriamos bem vindos
em seu meio, mas desde a descoberta do garimpo tentamos trabalhar em
comum acordo com os brancos mas infelizmente não foi possível, verificamos
que enquanto trabalhávamos juntamente com os brancos, houve uma desestruturação
das comunidades e uma enorme evasão de seus membros para a cidade, grandes
índices de contagio por doenças sexualmente transmissíveis. Durante
este período tivemos quatro interdições de trabalho para tentarmos organizar
tudo, porem não deram certo as quatros tentativas. Decidimos então não
mais explorar com os brancos e sim sozinhos, tirando o suficiente para
nosso sustento. Esta medida nos provou ser de grande eficácia pois agora
que estamos juntos, as comunidades estão se reestruturando, as lideranças
estão ressurgindo.
Devido esta decisão agora estamos sendo tratados como pessoas excluídas
da sociedade, pois somos vigiados por bandidos e ameaçados, não podemos
nem mesmo sair da aldeia, quando precisamos comprar comida ou fazer
qualquer outra coisa na cidade, nós não entendemos porque determinadas
pessoas agem desta forma egoísta e desumana trazendo pavor a nossa comunidade.
Há tanta malícia a ponto de desrespeitar nossos direitos.
Com a descoberta do garimpo, a situação tem se tornado em parte muito
mais difícil, porque se por um lado temos a dificuldade de trabalharmos
para sustentar nosso povo, por outro lado somos perseguidos como se
fôssemos bandidos condenados à morte, devido não termos boa escola e
um bom atendimento de saúde, temos que deixar nossos filhos na cidade,
para estudarem, porque queremos que no futuro nossos filhos se tornem
doutores, advogados, professores e muitas outras profissões, para que
não venham a passar pelas mesmas dificuldades que estamos enfrentando
neste dias.”
”Com relação a saúde temos também grandes dificuldades, pois estamos
a centenas de quilômetros da cidade e nosso posto de saúde é de pequena
estrutura, em vista das necessidades, pois caso haja alguma emergência
não sabemos o que pode acontecer tanto em questão de assistência médica
como de transporte emergencial.”
Queremos deixar claro uma coisa; devido a não termos acessos aos
limites da área, muitas vezes, ficamos sabendo que garimpeiros trabalham
manualmente de forma clandestina, com isso, ao extraírem minério, matam-se
uns aos outros, para furtarem entre si os minérios que exploraram clandestinamente.
Quando estes garimpeiros voltam à cidade, sem a presença de seus mal
fadados companheiros, rapidamente dizem que foram os Cinta Larga que
os mataram. Coisa que a mídia local, mancomunada com os interesses de
políticos, explora desavergonhadamente, denegrindo nossa imagem, desonrando
nosso povo e fomentando o ódio dos brancos contra nossa gente. Queremos
comunicar que, apesar de terem sido descobertos corpos dentro dos limites
de nossas terras, não existem provas, nem circunstanciais, nem cabais,
de que realmente os índios tenham cometido tais crimes. São noticias
infundadas como esta que nos apavoram.
Por quatro vezes, como já foi dito, interditamos os trabalhos de exploração
do minério em nossas terras, onde trabalham índios e brancos, e sempre
fizemos a retirada dos brancos sem que houvesse nenhum conflito ou morte.
O mesmo não aconteceu com o branco ao perceber que não mais entraria
em nossas terras para explorar nossas riquezas, ficaram furiosos, fizeram
manifestações, fecharam estradas federais (BR 364) e estaduais, impossibilitando
o trânsito de nossa gente, a entrada de alimentos e combustíveis, fizeram
(e ainda fazem) ameaças contra nossas vidas e contra a vida dos funcionários
que ocupavam os postos da barreira nos limites de nossas terras.
Queremos afirmar que nós Cinta Larga não invadimos os comércios, as
residências, as terras, as fazendas, não ameaçamos os filhos do branco,
a vida do branco. Também queremos a garantia da integridade de vida,
garantia ambiental e patrimonial. Nós, Cinta Larga, decidimos que não
mais trabalhar clandestinamente, exigimos do governo brasileiro a garantia
do usufruto exclusivo de nossas riquezas.”
”Não podemos permitir atos de clareza duvidosa como as prisões preventivas
que foram decretadas contra nossos filhos, fomos pegos de surpresa,
fomos traídos pelas autoridades judiciais que nos negaram o direito
de sermos ouvidos.”
NACOÇA PIU CINTA LARGA
Presidente da Associação Pamaré do Povo
Indígena Cinta Larga
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