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O POVO CINTA-LARGA

EM  BUSCA DE PAZ

 

A descoberta de diamantes na terra dos Cinta-Larga acirrou a ganância de garimpeiros que querem a todo custo invadí-la.

Para justificar essa atitude, contam com o apoio de um jornal local compromissado com os invasores.

Independentemente da sua terra indígena ter diamantes ou não, cabe aos Cinta-Larga, assistidos pela FUNAI e pelo Ministério Público da União decidir como serão explorados os recursos naturais de que dispõem.

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Senadora relembra o Massacre do paralelo 11 e defende os Cinta-Larga

A senadora Fátima Cleide do Partido dos Trabalhadores de Rondônia, fez um pronunciamento sobre as populações indígenas destacando a questão dos Cinta Larga, relembrando o Massacre do Paralelo 11, onde quase foram exterminados. Num trecho do discurso ela relata:

“Há 40 anos, devido ao episódio que ficou conhecido como o Massacre do Paralelo 11, o Estado brasileiro foi, pela primeira vez denunciado internacionalmente por genocídio. Em 1963, a ganância de mineradoras de diamantes reduziu os 5 mil Cinta Larga a cerca de mil e trezentos sobreviventes, em brutal ação de extermínio. Até hoje, os mandantes não foram punidos, enquanto testemunhas e denunciantes foram assassinados ou enlouqueceram.

Em janeiro deste ano, a área Cinta Larga encontrava-se invadida por mais de 5 mil garimpeiros em atividades de efeitos dramáticos sobre as condições de vida e a cultura daquele povo milenar. A partir da posse do Presidente Lula, no entanto, a garimpagem predatória e o saque aos recursos naturais na área Cinta Larga vinha sendo contida pela ação competente de uma equipe da FUNAI, coordenada pelo indigenista Walter Blós, que retirou – pacificamente – os garimpeiros da terra indígena, com a participação direta dos próprios índios nas operações de fiscalização e controle de seu território, apoiados pela Polícia Florestal de Rondônia e da Polícia Federal. Também foi aprimorado o Plano emergencial Pró-Cinta Larga – que, aprovado desde 2002 pelo Ministério da Justiça, ainda não foi implementado.

No entanto, desde setembro passado, a não liberação de recursos aprovados para a efetivação do Plano Pró-Cinta Larga e para as ações emergenciais reanimou as investidas de exploração ilegal de recursos no território indígena. Com isso, ganham fôlego renovado a prostituição, a corrupção, o tráfico de armas e drogas, com crescente registros de mortes – tanto de índios, quanto de garimpeiros e indigenistas.

Hoje, os garimpeiros e grandes empresas de mineração pressionam o governo pela liberação do garimpo e ameaçam re-invadir a área.

Por sua vez o governador Ivo Cassol tem sido duramente criticado e parcialmente responsabilizado pelo agravamento da situação, devido às posições publicamente assumidas em favor da liberação da mineração na área Cinta Larga e outras atitudes – que, na avaliação das organizações sociais da Amazônia, favorecem e estimulam a violação dos direitos indígenas.

O mais preocupante em meio a tudo isso é que esta em curso uma campanha covarde e criminosa, que utiliza todo os veículos de comunicação de meu estado, divulgando informações mentirosas e caluniosas contra os índios Cinta Larga e os funcionários da FUNAI, que perseveram em defender a vida e os direitos constitucionais daquela comunidade indígena.

Segundo informes que nos chegam de Rondônia, os Cinta Larga estão sendo barbaramente acusados de participar de crimes que desconhecem – o que exige já, o fundamental suporte jurídico e o monitoramento de relatores de direitos humanos nacionais e internacionais para evitar outras violações de direitos indígenas, na região.

A campanha disparada contra os índios, confunde a opinião dos cidadãos de bem que vivem nos municípios em torno da Terra Indígenas Cinta Larga. E vai mais além: alimenta e amplia o preconceito, a discriminação e a violência sobre as populações indígenas em geral, de todas as etnias, induzindo a população rondoniense a acreditar que os índios são um obstáculo ao desenvolvimento local. Pintados pela mídia local como assassinos cruéis, antropófagos primitivos e outros absurdos, essa campanha serve apenas para justificar um iminente genocídio, estimulado e patrocinado pelo rico mercado da mineração e da exploração madeireira – como há 40 anos se fez contra os Cinta Larga de Rondônia, como há 500 anos se faz neste país.

Em função da gravidade da situação, a Comissão de direitos Humanos da Câmara dos Deputados esteve em visita àquela região no mês passado e apresentou suas conclusões em audiência pública na semana passada. O relatório constituiu-se em documento histórico, com o precioso registro de fatos tão cruéis quase recorrentes, que vitimam o povo Cinta larga.

Em apoio a estas iniciativas, deflagrou-se também uma campanha de apoio ao povo indígena Cinta Larga, que já conta com a adesão de milhares de cidadãos e de organizações da Amazônia e das demais regiões do Brasil, exigindo providências, em caráter de urgência.”

   

Povo Cinta Larga relata problemas e rechaça acusações dos invasores de sua terra


O Povo Cinta Larga, durante a visita do relator nacional de direitos humanos e meio ambiente, Jean-Pierre Leroy, acompanhado de outras personalidades, à aldeia Roosevelt, em Rondônia, nos dias 16 e 17 de novembro, expõe mais uma vez os seus problemas, a critica situação deixada pelos garimpeiros, e denuncia como infundadas e mentirosas as acusações veiculadas por jornais do norte do país nas últimas semanas, segundo as quais os índios teriam assassinado alguns invasores de suas terras. As lideranças rechaçam essa campanha caluniosa promovida por todos aqueles interessados em retomar a exploração ilegal de mineiros na terra indígena. Reproduzimos, a seguir, trechos do relato apresentado pelo líder Nacoça Piu Cinta Larga.


”Quando tivemos contato com o branco achamos que seriamos bem vindos em seu meio, mas desde a descoberta do garimpo tentamos trabalhar em comum acordo com os brancos mas infelizmente não foi possível, verificamos que enquanto trabalhávamos juntamente com os brancos, houve uma desestruturação das comunidades e uma enorme evasão de seus membros para a cidade, grandes índices de contagio por doenças sexualmente transmissíveis. Durante este período tivemos quatro interdições de trabalho para tentarmos organizar tudo, porem não deram certo as quatros tentativas. Decidimos então não mais explorar com os brancos e sim sozinhos, tirando o suficiente para nosso sustento. Esta medida nos provou ser de grande eficácia pois agora que estamos juntos, as comunidades estão se reestruturando, as lideranças estão ressurgindo.

Devido esta decisão agora estamos sendo tratados como pessoas excluídas da sociedade, pois somos vigiados por bandidos e ameaçados, não podemos nem mesmo sair da aldeia, quando precisamos comprar comida ou fazer qualquer outra coisa na cidade, nós não entendemos porque determinadas pessoas agem desta forma egoísta e desumana trazendo pavor a nossa comunidade. Há tanta malícia a ponto de desrespeitar nossos direitos.

Com a descoberta do garimpo, a situação tem se tornado em parte muito mais difícil, porque se por um lado temos a dificuldade de trabalharmos para sustentar nosso povo, por outro lado somos perseguidos como se fôssemos bandidos condenados à morte, devido não termos boa escola e um bom atendimento de saúde, temos que deixar nossos filhos na cidade, para estudarem, porque queremos que no futuro nossos filhos se tornem doutores, advogados, professores e muitas outras profissões, para que não venham a passar pelas mesmas dificuldades que estamos enfrentando neste dias.”
 
”Com relação a saúde temos também grandes dificuldades, pois estamos a centenas de quilômetros da cidade e nosso posto de saúde é de pequena estrutura, em vista das necessidades, pois caso haja alguma emergência não sabemos o que pode acontecer tanto em questão de assistência médica como de transporte emergencial.”
 
Queremos deixar claro uma coisa; devido a não termos acessos aos limites da área, muitas vezes, ficamos sabendo que garimpeiros trabalham manualmente de forma clandestina, com isso, ao extraírem minério, matam-se uns aos outros, para furtarem entre si os minérios que exploraram clandestinamente. Quando estes garimpeiros voltam à cidade, sem a presença de seus mal fadados companheiros, rapidamente dizem que foram os Cinta Larga que os mataram. Coisa que a mídia local, mancomunada com os interesses de políticos, explora desavergonhadamente, denegrindo nossa imagem, desonrando nosso povo e fomentando o ódio dos brancos contra nossa gente. Queremos comunicar que, apesar de terem sido descobertos corpos dentro dos limites de nossas terras, não existem provas, nem circunstanciais, nem cabais, de que realmente os índios tenham cometido tais crimes. São noticias infundadas como esta que nos apavoram.

Por quatro vezes, como já foi dito, interditamos os trabalhos de exploração do minério em nossas terras, onde trabalham índios e brancos, e sempre fizemos a retirada dos brancos sem que houvesse nenhum conflito ou morte. O mesmo não aconteceu com o branco ao perceber que não mais entraria em nossas terras para explorar nossas riquezas, ficaram furiosos, fizeram manifestações, fecharam estradas federais (BR 364) e estaduais, impossibilitando o trânsito de nossa gente, a entrada de alimentos e combustíveis, fizeram (e ainda fazem) ameaças contra nossas vidas e contra a vida dos funcionários que ocupavam os postos da barreira nos limites de nossas terras.

Queremos afirmar que nós Cinta Larga não invadimos os comércios, as residências, as terras, as fazendas, não ameaçamos os filhos do branco, a vida do branco. Também queremos a garantia da integridade de vida, garantia ambiental e patrimonial. Nós, Cinta Larga, decidimos que não mais trabalhar clandestinamente, exigimos do governo brasileiro a garantia do usufruto exclusivo de nossas riquezas.


Não podemos permitir atos de clareza duvidosa como as prisões preventivas que foram decretadas contra nossos filhos, fomos pegos de surpresa, fomos traídos pelas autoridades judiciais que nos negaram o direito de sermos ouvidos.”



NACOÇA PIU CINTA LARGA
Presidente da Associação Pamaré do Povo
Indígena Cinta Larga

 

 

Quem são os Cinta-Larga?

 

Os Cinta Larga são assim denominados pelo fato de usarem uma faixa da entrecasca de tauari na altura da cintura. Se autodenominam Panderej, que significa “nós somos gente ou pessoas humanas”.

Os primeiros contatos com os não-índios, ocorreram nos anos 50 e foram marcados pela violência, com o avanço da frente extrativista, que penetrou em seu território em busca de riquezas e seringais.

São habitantes do noroeste do estado do Mato Grosso e Rondônia, nas Terras Indígenas Roosevelt e Serra Morena, Parque Aripuanã e Juína, todas demarcadas.

Falam a língua pertencente ao tronco Tupi, da família linguística Mondé. Sua população atual é de 1.200 indígenas.

Com a demarcação de suas terras pela Funai e sua posterior homologação pelo Presidente da República, os Cintas Largas puderam viver um tempo de paz, porém vêm enfrentado constantes invasões em suas terras por garimpeiros de diamantes, com o apoio das prefeituras.

 

 

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