Seminário permite troca de conhecimento tradicional e científico sobre manejo do fogo

manejofogoA troca de conhecimento tradicional e científico foi o objetivo do Seminário Manejo intercultural e participativo do fogo na América do Sul: experiências e desafios, encerrado na última quinta-feira, dia 16, no Centro de Excelência de Turismo da Universidade de Brasília.

 

O Seminário reuniu representantes dos povos indígenas Xerente, Xacriabá, Kaiapó, Macuxi do Brasil e da GUIANA, Gavião, Suiá, Wapichana dA gUIANA, Pémon – Arekuna da Venezuela, além de pesquisadores e técnicos de instituições do Brasil, Venezuela e Guyana. Os participantes debateram o resultado de discussões e excursões de campo realizadas nos dias 11 a 15 de março em Brasília e Cavalcante/GO.

 

Para Yaiku Kisedje, liderança da Terra Indígena Parque do Xingu, o seminário permitiu conhecer outras formas de manejo do fogo, como a queima prescrita, derrubada de vegetação nos três primeiros meses do ano. No período de seca, período propício à ocorrência de incêndios espontâneos, a vegetação derrubada cresce e forma uma barreira.

 

A Coordenadora de Prevenção de Ilícitos da Coordenação Geral de Monitoramento Territorial da Funai, Gabriella Guimarães, falou da dificuldade de um envolvimento maior da comunidade, ressaltando os resultados positivos alcançados, como na Terra Indígena Sororó no estado do Pará. Os Suiá, segundo a coordenadora, fazem um trabalho integrado com os moradores do entorno com queimadas controladas, além de recuperar áreas degradadas com mudas do viveiro da própria comunidade.

 

"Os índios Gavião, Guajajara e Awá Guajá sofreram muito no ano passado com os incêndios criminosos provocados por invasores, queimando nossas roças. Neste ano, se não conseguirmos apoio e retorno do PREV-FOGO do IBAMA vamos sofrer muito mais", desabafou MarcelO Gavião, da aldeia Governador, no município de Amarante no estado do Maranhão. "O Gavião criou um grupo de guardiões denominado Pji Jamyrcatiji, formado por 41 pessoas da comunidade, para atuar na prevenção, monitoramento do fogo e fiscalização da área, mas não tem pessoal e equipamentos para atuar em casos de incêndio", diz ainda Marcelo.

 

Rede Parupa de Manejo Intercultural do Fogo

 

Em 2015, Jay Mistry, geógrafa da Universidade Royal Halloway de Londres e Bibiana Bilbao, ecóloga da Universidade Simon Bolívar de Caracas convidaram grupos de pesquisadores, indígenas e gestores públicos da Venezuela, Guyana e Brasil para uma reunião em Parupa, Gran Sabana, Parque Nacional de Canaíma/Venezuela. O objetivo foi compartilhar ideias, experiências e desafios sobre Manejo Intercultural e Participativo do fogo. Foi criada a Rede Parupa, envolvendo até o momento representantes de Brasil, Guyana e Venezuela, tendo como coordenador pelo Brasil Vincenzo Lauriola, pesquisador do Núcleo de Roraima do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia, Ministério da Ciência,  Tecnologia e Inovação. Fazem parte da rede pesquisadores e membros de instituições responsáveid de políticas públicas como Ibama e Funai, além de organizações e lideranças indígenas de Roraima e de Mato Grosso.

 

Durante a oficina, foi avaliado o desempenho da Rede e a perspectiva de criação de uma Rede Sulamericana de MIF

 

O evento teve apoio do The Woodspring Trust, British Academy, Ibama, Funai, UnB, ISPN, e ISA.

 

Texto: Eleonora de Paula/Ascom

Destaques

class=Imagine passar 22 anos observando uma só pessoa. Planejando ações de vigilância do território onde vive, garantindo sua proteção contra ameaças externas. Nenhuma palavra trocada. Todo contato consistindo em fornecer alguns objetos que poderiam ser úteis para a sua sobrevivência. É esse o trabalho realizado pela Funai na Terra Indígena (TI) Tanaru, onde vive o indígena isolado popularmente conhecido como o "índio do buraco".

 

A Frente de Proteção Etnoambiental Guaporé (FPE Guaporé) é a unidade da Funai responsável pelo monitoramento dos seus processos de ocupação e pela proteção da TI Tanaru. Esse trabalho é realizado constantemente. Periodicamente a FPE Guaporé alterna ações de monitoramento da TI Tanaru com ações de vigilância do entorno de seu território, garantindo sua proteção.

 

Quando há a presença confirmada ou possível de povos indígenas isolados fora de limites de terras indígenas, a Funai se utiliza do dispositivo legal de Restrição de Uso (interdição de área), amparando-se no artigo 7.º do Decreto 1775/96; no artigo 231 da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988; e no artigo 1.º, inciso VII da Lei nº 5371/67, visando a integridade física desses povos em situação de isolamento, enquanto se realizam outras ações de proteção e tramitam processos de demarcação de terra indígena.

 

A atual delimitação da TI Tanaru foi estabelecida em 2015, por meio da Portaria do Presidente da Funai de número 1040 de 16 de outubro, que prorrogou a interdição de área por mais 10 anos. A área demarcada possui 8.070 hectares. Não obstante, as primeiras interdições de área ocorreram já na década de 1990, logo após a confirmação da existência do índio isolado da TI Tanaru.

 

É bastante traumático o histórico do povo indígena ao qual pertence. Na década de 80, a colonização desordenada, a instalação de fazendas e a exploração ilegal de madeira em Rondônia, provocaram sucessivos ataques aos povos indígenas isolados que até então viviam nessas regiões, num constante processo de expulsão de suas terras e de morte.

 

Após o último ataque de fazendeiros ocorrido nos finais de 1995, o grupo que provavelmente já era pequeno (a partir de relatos, a equipe local acreditava serem seis pessoas) tornou-se uma pessoa só. Os culpados jamais foram punidos. Em junho de 1996, a Funai teve finalmente o conhecimento da existência e da traumática história deste povo, a partir da localização de acampamento e outros vestígios de sua presença. Quando a Funai finalmente confirmou sua presença, já havia apenas uma pessoa. No entanto, outros indícios anteriores levaram os servidores a crer que ali residia um grupo maior.

 

Nos últimos 10 anos, a Funai realizou 57 incursões de monitoramento do indígena e cerca de 40 viagens para ações de vigilância e proteção da TI Tanaru. Até a presente data a FPE Guaporé localizou 48 moradias, documentadas conforme a metodologia da Funai. Ao longo do tempo, foram registradas várias imagens suas, obtidas por acaso, durante as ações da FPE Guaporé no interior da TI Tanaru. Mesmo com uma equipe reduzida, a Funai não mediu esforços para estar presente, vigiando o entorno e monitorando suas condições de vida. "A gente sempre sabe mais ou menos em qual igarapé e em qual parte da terra indígena ele se encontra. Monitoramos ele de longe", afirma Altair Algayer, Coordenador da FPE Guaporé. Há mais de 5 anos não se observam invasões de madeireiros, desmatamentos e nenhuma outra presença de pessoas estranhas dentro dos limites da área.

 

A partir da confirmação da presença dele, em 1996, a Funai realizou algumas tentativas de contato, mas logo recuou ao perceber que não era da vontade dele. A última tentativa ocorreu em 2005. Deste então, os servidores que o acompanham deixam apenas algumas ferramentas e sementes para plantio em locais que ele passa frequentemente. Por volta de 2012, a Funai registrou algumas roças de milho, batata, cará, banana e mamão plantadas pelo indígena, que vive basicamente desses alimentos e da caça.

 

O que surpreende os servidores que acompanham a trajetória do indígena isolado da TI Tanaru é a sua vontade de viver. Para Altair, "Esse homem, que a gente desconhece, mesmo perdendo tudo, como o seu povo e uma série de práticas culturais, provou que, mesmo assim, sozinho no meio do mato, é possível sobreviver e resistir a se aliar com a sociedade majoritária. Eu acredito que ele esteja muito melhor do que se, lá atrás, tivesse feito contato".

 

Compete à Funai, por meio CGIIRC e das CFPEs, garantir aos povos isolados o pleno exercício de sua liberdade e das suas atividades tradicionais, disciplinando o ingresso e trânsito de terceiros em áreas em que se constate a presença de indígenas como Tanaru, tomando as providências necessárias à proteção desses povos.

 

Assista ao vídeo registrado pela FPE Guaporé.

 

 

Ana Carolina Aleixo Vilela - ASCOM/FUNAI

Com informações da CGIIRC e FPE Guaporé

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