Funai entrevista Joênia Wapichana – a primeira mulher indígena a ser eleita deputada Federal no Brasil

joeniaO dia 7 de outubro trouxe uma conquista para os povos indígenas brasileiros: Joênia Batista de Carvalho, do povo Wapichana, foi eleita a primeira mulher indígena brasileira Deputada Federal. A candidata foi a única eleita pela Rede Sustentabilidade e recebeu um total de 8.267 votos. Desde 1982, com Mário Juruna, um indígena não se elegia Deputado Federal.

 

Joênia também foi a primeira mulher indígena a se formar em Direito no país pela Universidade Federal de Roraima, em 1997, e pela University of Arizona, nos Estados Unidos.

 

Uma de suas bandeiras, que a fez entrar no mundo da política, foi a luta pela demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol. A indígena também defende a atuação pelo desenvolvimento sustentável no Estado de Roraima onde contemple as diversidades socioculturais, os direitos coletivos dos indígenas, a atuação contra a corrupção e a realidade de Roraima com respeito ao meio ambiente.

 

Sua campanha foi custeada com recursos oriundos de um site de financiamento coletivo. Aos 43 anos, a indígena não representa apenas uma conquista para os povos originários mas para todas as mulheres do Brasil.

 

A Assessoria de Comunicação da Funai entrou em contato hoje (8) pela manhã com Joênia e conseguiu uma entrevista, na qual a Deputada expôs tudo aquilo que pensa sobre o cenário atual, suas propostas e os desafios que se aproximam.

 

FUNAI: Joênia, o que a levou à política?

 

JOÊNIA: A necessidade de ter uma representação parlamentar indígena no Congresso Nacional e defender os direitos indígenas, porque hoje nossos direitos estão em risco com propostas anti-indígenas, por acreditar que as Terras Indígenas merecem programas, políticas e incentivos, para que haja sustentabilidade, para trabalhar para uma geração futura como a juventude, para destacar a importância das mulheres e somar isso à defesa dos direitos sociais para cada brasileiro.

 

 

FUNAI: Quais são as suas principais propostas?

 

JOÊNIA: A defesa dos direitos coletivos indígenas como ponto prioritário. Defender a conclusão da regularização fundiária das terras, trazer proteção a elas, buscar combater propostas anti-indígenas, levar a garantia de consulta dos povos indígenas nos projetos de lei que tramitam na Câmara, fazer com que o novo Estatuto do Índio possa ser desengavetado. Fazer com que os direitos indígenas não sejam só na defesa e sim propositivos como, por exemplo, fazer um sistema próprio de educação escolar indígena, trazer profissionais pra área de saúde. A sustentabilidade também é uma linha que vou defender, para buscar medidas para uma solução energética na Amazônia, tentando buscar energias alternativas, limpas, energia dos ventos, energia solar, e ter a possibilidade de levar essa discussão para a Câmara.

 

 

FUNAI: Quais foram as dificuldades encontradas em sua campanha?

 

JOÊNIA: Roraima sempre teve uma cultura de apoiar grandes políticos que já estão aí há muitos anos. Então a dificuldade que eu tive foi fazer com que a população, tanto as comunidades indígenas quanto a população não-indígena acreditassem que é possível a gente fazer uma campanha simples, levando a verdade e o compromisso, mostrando que vale a pena trabalhar em uma campanha honesta.

 

Diziam "Ah, sua campanha não é rica, é simples! Joênia é pobre, como ela vai ajudar vocês?". Então, um desafio que eu tinha era desmistificar tudo isso que as pessoas falam: que nós indígenas somos incapazes, que não temos condições de ter uma campanha. É uma campanha simples mas uma campanha que tem o objetivo de levar melhoria pro Estado, é viável, é justa, e a população está acreditando que há a necessidade de uma mudança de uma política velha pra uma política nova, que defende o interesse coletivo.

 

 

FUNAI: Você foi a primeira mulher indígena a se formar em direito e agora é a primeira mulher indígena a ser eleita deputada federal. O que isso significa na luta pelos direitos das mulheres e pelos direitos dos povos indígenas?

 

JOÊNIA: Eu estou muito feliz por ter recebido bastante apoio das mulheres indígenas, das mulheres do movimento social. Os direitos das mulheres eu sempre coloquei nas minhas falas, que nós mulheres temos que estar unidas porque temos questões específicas, nós temos questões que só nós sabemos.

 

A mulher tem aquela sensibilidade, a palavra da mulher é sagrada. Nós, mães, mulheres, quando tem alguma coisa para repartir na mesa, sabemos dividir muito bem pra todos que estão na mesa. Muitas vezes a gente deixa de comer para dar para um filho. Essa necessidade de repartir e compartilhar é que está faltando na política. As pessoas estão centradas em seu próprio umbigo.

 

Por mais que eu seja indígena, eu vou trabalhar pro não-indígena também porque eu sei as necessidades da população, eu sei que o Brasil não é só dos indígenas, é dos brancos, é dos negros, e é nessa coletividade que eu quero levar o meu trabalho, com seriedade, sensatez e sensibilidade de quem está vindo de uma classe que não é favorecida pelo poder econômico.

 

Nós indígenas temos uma riqueza cultural e valores que talvez seja isso que esteja faltando no Congresso Nacional. Os valores indígenas, que tomam decisões em conjunto, choram junto, festejam junto e todos se preocupam com todos, não somente com seu bolso, não somente com a sua família.

 

 

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