Entrevista com a secretária Especial de Saúde Indígena, Sílvia Waiãpi

silvia dFoi assim que eu entrei para o Exército brasileiro na certeza de que a história iria cobrar isso de mim. Então eu me dediquei. Se uma pessoa chegava no hospital às sete horas da manhã, eu chegava às cinco. Era a primeira a chegar e a última a sair. Enquanto alguns tinham o seu final de semana, eu, por opção própria, passava o meu feriado, o meu final de semana dentro do hospital para cuidar daqueles pacientes, que eram os meus irmãos de farda, que era a família verde-oliva.

E ao mesmo tempo eu me questionava. A minha consciência me cobrava e dizia que eu ajudava a salvar o mundo. 'Você salva o tempo inteiro, está brigando pela saúde desse povo e quando é que você vai lutar pelo seu?', pensava. Eu sabia que eu tinha que me preparar para isso. Sabia que eu tinha que ser uma das melhores, eu tinha que ter o melhor currículo. Eu tinha que ter todo um esforço e dedicação. A minha vida inteira foi construída em cima dessas batalhas.

Chegou um momento em que eu me tornei a chefe do Serviço de Medicina Física e Reabilitação do Hospital Central do Exército, que é o maior e mais antigo hospital militar da América Latina. E foi aí que uma mulher indígena começou a trilhar novos passos. Eu já tinha trabalhado toda uma questão de formação como transporte aeromédico adulto, neonatal, pediátrico, resgate aeromédico. Tenho formação pela ONU em salvaguarda e segurança, formação básica e específica na minha área da saúde que é a fisioterapia. Sou formada em Política Estratégica pela Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra. Tenho formação em Liderança Estratégica pela Escola de Comando do Estado-Maior do Exército brasileiro.

silvia fComo disse, tenho uma vida toda voltada para me preparar para assumir essa função. Tenho bastante tempo de experiência em gestão pública, compliance, contratos. Fui fiscal de contratos, responsável pela pasta de segurança de equipamentos e materiais do núcleo de segurança de pacientes do Hospital Central do Exército. Então, uma vida bem voltada para a questão administrativa, para a área de saúde e para a área fim, que é o atendimento direto com o paciente também em emergência.

Eu me preparei para estar aqui, para fazer o melhor, e vai ser assim. O nosso serviço tem uma característica que é a formação em transporte e resgate aeromédico. Foi o primeiro serviço no Brasil que um hospital instituiu uma emergência. Pessoas foram responsáveis por isso. E dentre essas pessoas, meus colegas de farda. Em 2011 houve um acidente na estrada, onde vários oficiais faleceram. Um ônibus capotou e vários oficiais ficaram mutilados. Eu fui chamada para ajudar a receber esses militares na emergência. E ali ficou marcada uma história muito grande para mim. Quando eu me deparei com aquela praça de guerra, eu me questionei sobre tudo o que eu estava fazendo ali e sobre o que eu representava para aquelas pessoas. Então veio a importância da minha formação na área de emergência e na área do resgate.

A minha formação em transporte aeromédico se deu por conta de alguém lembrar para mim que nós havíamos recebido uma criança com um tumor na coluna e o sonho dessa criança era comer um Big Mac. E aí me perguntaram se eu poderia fazer com que aquela menina pudesse comer um Big Mac, porque na cidade dela não tinha. Eu pensei e disse: não é só um sanduíche. Com ajuda de alguns amigos da Marinha, consegui entrar em contato com o Instituto Ronald Mcdonald, e aquela menina recebeu a visita do próprio Ronald Mcdonald, o ator principal, dentro do Hospital onde ela realizou o seu sonho de comer um Big Mac.

Ela teve alta do Hospital, tirou o tumor na coluna, mas não podia mais andar. Então ela voltou para a cidade dela. Meses depois o pai entrou em contato comigo dizendo que ela havia tido uma infecção urinária e estava sendo transferida de UTI aérea para o Rio de Janeiro. E eu me preparei para esperar por ela. Horas depois eu recebi uma ligação de que a aeronave havia retornado e a menina havia falecido.

Eu me perguntei: quem segurou a mão dela enquanto ela morria? E a resposta foi bem clara: eu não tinha experiência nenhuma na área e jamais poderia estar ali. A partir de então, eu resolvi me preparar para que nesse momento tivesse alguém que realmente se importasse e segurasse a mão quando a família não estivesse ali. Então resolvi me formar em transporte aeromédico.

(continua na página 3)

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