Ritual do Kuarup no Parque do Xingu reúne povos indígenas em homenagem a seus ancestrais

kuarup b edAo celebrar a passagem do espírito dos que partiram para a aldeia dos mortos, o ritual do Kuarup marca o fim de um período de um ano de luto e celebra a memória daqueles que morreram. Pais, avós, tios e amigos são lembrados com rezas, choro e saudade no mais importante cerimonial de todos os povos xinguanos. As celebrações começaram em julho e se estendem até setembro. 



A cerimônia de despedida é feita durante uma noite inteira em um lugar onde as rezas e cânticos indígenas são entoados. Na tradição do Parque Indígena do Xingu, cada tronco enfeitado com adornos coloridos representa uma pessoa falecida a ser homenageada. Esses troncos ocupam o lugar central no ambiente em que indígenas rezam e choram a morte de seus entes queridos.

 

kuarup f edPara organizar todas as cerimônias que fazem parte do Kuarup, as aldeias levam até um ano de preparação. A celebração envolve praticamente todos os integrantes das comunidades, a começar pelas índias adolescentes que participam do rito que marca o início da vida adulta. E é justamente no Kuarup em que acontece o fim do período pelo qual elas precisam permanecer isoladas nas ocas de suas famílias, sem contato com a aldeia.


Luto e luta


Outro tradicional ritual realizado dentro das celebrações é a luta Huka Huka, disputada entre duplas de guerreiros de diferentes aldeias. Com os corpos pintados de urucum (cor vermelha) e jenipapo (cor preta), cada guerreiro tem o objetivo de derrubar seu oponente segurando-o pela perna. Depois que o ritual das lutas termina, os enfeites dos trocos são entregues aos familiares das pessoas falecidas. Depois, cada tronco é jogado na lagoa próxima à aldeia. Com isso, a alma representada no tronco estará livre para partir.

Kuarup h edEm 2019, o povo Kamayurá organizou a primeira celebração entre os dias 23 e 24 de julho. Estiveram presentes aproximadamente dois mil indígenas de nove comunidades. É nas palavras do cacique Kotok que os rituais ganham a dimensão do que representam para os povos do Parque do Xingu: " É importante para poder terminar o luto. O Kuarup é somente para pessoa importante para nós, não é para qualquer pessoa", esclarece o cacique.

Kotok também salienta a dificuldade na preparação do Kuarup. "A pescaria [que antecede o início do ritual] tem que ter muito peixe. A gente faz uma pescaria grande para poder alimentar o povo que chega das outras aldeias. São nove povos que vieram para o Kuarup: Mehinako, Kuikuro, Waura, Aweti, Matipu, Kalapalo, Nahukua e Yawalapiti", além do povo Kamayurá, anfitrião do primeiro evento na temporada.

Institucional

kuarup d edA comitiva dos servidores da Funai sede de Brasília, que viajou ao Alto Xingu neste mês de julho, contou com o chefe de gabinete da Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), Davi Calazans. Ele representou no evento a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), Damares Alves.

 

"A experiência do Kuarup foi única, maravilhosa. Eu nunca tinha participado de algo tão singular", relata. De acordo com ele, o trabalho da SEPPIR também engloba "os povos tradicionais e originários, e os povos indígenas se enquadram neste perfil. É uma cultura que devemos incentivar, cultivar e proteger, ajudando os povos indígenas no desenvolvimento e na perpetuação desses saberes tão tradicionais", afirma Calazans.

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