Especial Dia Internacional do Povos Indígenas - Funai apoia iniciativas de valorização e resgate linguístico-cultural

Paumari - Nova Cartografia Social da Amazonia"É importante para o país reconhecer que nossa língua é uma língua original do Brasil. Vemos a necessidade de respeito, de sensibilidade em reconhecer e entender que nossas línguas têm valor, fazem parte da nossa história, do nosso conhecimento."  Edilson Makoka Paumari

 

 

A grandeza do território brasileiro implica naturalmente na pluralidade, desde aspectos geográficos a contrastes de pensamentos e opiniões. Ao longo dos anos de formação do país, os povos indígenas têm contribuído em diversas dimensões para a construção de uma identidade nacional. A diversidade linguística é uma delas. 

 

Atualmente, mais de 270 línguas indígenas constroem parte significativa da riqueza do Brasil. Isso significa mais de 270 maneiras de definir o mundo e compartilhar saberes de um número inimaginável de realidades. Perder qualquer uma delas provocaria a desconfiguração identitária de um povo indígena e, consequentemente, de uma nação.

Ao longo dos anos, muitos povos indígenas têm visto seus jovens perderem a ligação com a língua materna, costumes e tradições. Essas perdas são tão intrínsecas que se torna impossível concluir a ordem em que acontecem. Foi ao observar essa situação na realidade de seu povo que o professor Edilson Makokoa Paumari considerou urgente a criação de um projeto que pudesse valorizar e recuperar o pamoari, a língua do povo Paumari, que habita a região do médio purus.

Influenciados pelas difíceis relações impostas com a sociedade envolvente ao longo dos anos, principalmente nos dois períodos do ciclo da borracha, os Paumari passaram a desenvolver um pidgin, uma espécie de língua de contato, entre o português e o pamoari. Ou seja, há uma mescla de alta recorrência entre os dois idiomas, às vezes numa mesma frase.

Edilson Paumari

Quando fez um curso intercultural na região da Chapada dos Guimarães-MT, Edilson observou que os outros indígenas se expressavam nas respectivas línguas maternas e aquilo lhe chamou a atenção. Ao voltar à cidade de Lábrea-AM, o professor verificou que os jovens da região urbana não se comunicavam em pamoari e muitos sequer conheciam, de fato, a língua.

Ao lado de outros professores Paumari e Apurinã, Edilson decidiu encarar uma batalha pelo resgate linguístico e cultural dos jovens indígenas da cidade, a partir do que intitulou de Programa Sou Bilíngue, uma iniciativa da Federação das Organizações e Comunidades Indígenas do Médio Purus (FOCIMP) desenvolvida em parceria com a Funai e outras instituições governamentais e não-governamentais. "Pensei em trabalhar com os jovens da cidade. Alguns saíam da aldeia em busca de educação enquanto outros já haviam nascido na área urbana. A ideia é que ensinemos as línguas indígenas a eles para que as valorizem e não se desprendam de suas raízes", relata o idealizador.

"Todo ano temos duas turmas de aproximadamente 20 pessoas para aprender as línguas. Os alunos têm entre seis e 15 anos. Estudam durante o dia na escola não-indígena da cidade, mas, à noite, aprendem conosco a escrita pamoari, artes, pintura corporal, história: tudo na nossa língua. Os alunos são interessados e muitos querem se tornar futuros professores do projeto. Atualmente temos alunos Paumari, Apurinã e Banawá na turma de pamoari querendo aprender", explica Renildo(viko) Paumari, ex-aluno e atual coordenador do Programa.


Vitória da língua

paumari8

A iniciativa não para por aí. Não basta aprender em sala de aula, é preciso vivenciar. A partir dessa ideia surgiu um inusitado desdobramento do Programa: o Campeonato de Língua Paumari realizado na aldeia do Lago Maraha, na Terra Indígena Paumari.

Uma vez ao ano, até sete aldeias se unem para uma impressionante imersão linguística e cultural. Durante três dias, crianças, jovens, mulheres, anciãos: todos participam do evento em que só se fala pamoari. Danças, comidas tradicionais, músicas, pinturas e os conhecimentos Paumari são compartilhados e simultaneamente fortalecidos por todos.

Edilson conseguiu promover o reencontro de seus alunos da cidade com a própria origem e, ainda, envolver as comunidades indígenas numa maneira lúdica de treinar o pamoari: um campeonato de criação de narrativas.

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