Em Rondônia, intercâmbio dos recém contatados Kanoé fortalece a sobrevivência da etnia

 

 

Histórico

 

Kanoe-2O povo Kanoé (lê-se "Kanoê") habita hoje diversos locais das regiões sul e sudoeste do estado de Rondônia, como as Terras Indígenas Rio Guaporé, Sagarana, Rio Branco, Pacaás-Novas e Rio Omeré, além de outros territórios habitados em decorrência de casamentos com outras etnias. Grande parte dos Kanoé que conseguiram se refugiar das tentativas de colonização foram contatados já na primeira metade do século XX. Esses contatos foram ocasionados por fatores como a travessia de Rondon pela região, a exploração da borracha no contexto da Segunda Guerra ou ainda o trabalho das extintas Frentes de Atração da Funai.

 

As relações que se desenvolveram com a sociedade envolvente a partir daí tiveram grande influência dos paradigmas norteadores das políticas de Estado antes da Constituição de 1988, que não buscavam garantir o respeito à cultura e à organização social indígenas. O entendimento da língua Kanoé como isolada já no final da década de 1980 pode ser apontado como uma das diversas consequências que o modelo assimilacionista trouxe à cultura do autodenominado "povo que veio da água, do barro".

 

 Após o período de extração da borracha, as atividades agropecuária e madeireira se instalaram na região. Mesmo assim, indícios e relatos de 1940 sobre a existência de povos isolados nas imediações do Rio Omeré persistiam. A intensificação das evidências na década de 1980 motivaram a Funai a dar início às expedições de localização. A denúncia de moradores locais acerca da extrema vulnerabilidade da pequena população sobrevivente fez o órgão indigenista interditar a área, em 1986, para confirmar a presença desses indígenas.

 

Os confrontos jurídicos relativos à interdição trouxeram sérios impedimentos à atuação da Funai. As suspensões e restaurações dos efeitos da Portaria de Interdição se revezaram por cerca de oito meses até a decisão de desinterdição da área. Mesmo assim, acreditando na possibilidade da existência do grupo nas matas remanescentes, os indigenistas Marcelo dos Santos e Altair Algayer continuaram as expedições.

 

Finalmente, em 1995, essas incursões culminaram no encontro de dois grupos de isolados à margem esquerda do Rio Omerê. Sua identificação etnolinguística requereu um trabalho meticuloso, visto que a língua que falavam praticamente não era conhecida no entorno. Após pesquisa envolvendo diversos atores, descobriu-se que se tratava de famílias Kanoé e Akuntsu, sobreviventes após dizimação das comunidades em que viviam.

 

ti rio omere (1)

 

As novas diretrizes de atuação do Estado junto aos povos indígenas isolados e de recente contato, estabelecidas em 1987 em consonância com a Constituição que viria a ser promulgada, possibilitaram aos grupos o estabelecimento de uma relação autônoma com a sociedade não indígena, com a proteção e o reconhecimento de sua organização social.

 

Os falantes da língua Kanoé residem junto ao grupo Akuntsu na Terra Indígenas Rio Omeré. Estabeleceram-se como uma espécie de núcleo articulador de processos de fortalecimento da cultura Kanoé. Com o apoio de linguistas e outros pesquisadores, a Funai tem se dedicado a processos educativos em prol do registro e disseminação da língua materna junto aos integrantes de seu povo.

 

 

Coordenação-Geral de Índios Isolados

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