Nos I Jogos, em Goiânia, GO, em outubro de 1996,
não havia ainda um formato para desenvolver o evento. Estabeleceram
o critério de "premiação" com entrega
de medalhas para cada prova, no pódio, construído no
estilo olímpico. No primeiro dia de competição,
na modalidade de atletismo, realizada pela manhã, os "ganhadores"
foram chamados pelo alto-falante para receberem as medalhas, mas ninguém
compareceu. Depois de chamarem muito os vencedores compareceram. Os
coordenadores de prova foram procurá-los, e levaram ao pódio,
mas o ônibus que levaria as delegações até
o local do almoço também chegou, e os atletas ganhadores
de medalha foram correndo para o ônibus, sem dar nenhuma importância
para a premiação.
Nos primeiros jogos, ainda como experimento, a natação
foi realizada na piscina olímpica, e muitos atletas indígenas
nadaram apenas de cueca, por não terem roupa adequada, e sentiram-se
bastante à vontade. Também nos Jogos em Goiânia,
o juiz explicava às corredoras da prova de 100 m rasos como
seria disputada a modalidade. Entre as competidoras havia uma representante
dos Kanela que não prestava a devida atenção
às explanações. Ao observar esse comportamento
um dos coordenadores chamou-a num canto e perguntou se estava entendendo.
Não obteve resposta e o representante da coordenação
concluiu que ela não entendia bem o Português. Por gestos
e falando pausadamente, ele explicou como seria a disputa. Por fim
ela disse que havia compreendido. Foi dada a largada, mas a atleta
Kanela não acompanhou as outras e ficou olhando para o coordenador,
que indicou gestualmente que ela deveria partir. Momentos após
a largada ela partiu, alcançando e ultrapassando em pouco tempo
as demais competidoras. Quando alcançou a linha de chegada,
havia uma corda, que deveria ser tocada pela atleta vencedora. Mas
a indígena não tocou na corda, passou por baixo da corda
e continuou correndo.
Numa partida de futebol masculino nos I Jogos, as equipes dos Kanela
e Xingu, disputaram uma jogada praticamente em cima da linha que delimita
a entrada do gol. Um dos atletas através de gesto ao juiz reclamou
que a bola havia entrado, porém o goleiro chamou esse atleta,
mostrando e colocando a bola quase em cima da linha demarcatória,
embaixo das traves. O atleta atacante olhou e balançou a cabeça
confirmando que realmente a bola não havia entrado. O atacante
poderia ter chutado a bola para dentro do gol, o que seria válido
pois a bola estava em jogo, mas não o fez. Nas partidas de
futebol disputada nos Jogos a comunicação entre os atletas
da mesma equipe é praticamente inexistente, não há
gritaria nem xingamento com os companheiros, muito menos com os adversários
pelo fato de não falarem a mesma língua. Sempre existem
entradas duras, como em qualquer partida de futebol, mas as reclamações
são raras.
As canoas usadas nos Jogos são emprestadas pelo povo Erikbatsa,
indígenas conhecidos como canoeiros, pois o modelo de "fabricação"
das canoas é de fácil adaptação a todos
os atletas indígenas participantes dessa modalidade. Não
é viável para todas as etnias levarem as suas próprias
canoas, pois elas não possuem um padrão definido para
essa competição. Os tipos de madeira diferem por etnia,
bem como o modelo e sua finalidade na fabricação. A
distribuição das canoas é feita por sorteio.
Na prova de canoagem, realizada no Rio Paraguai, durante os II Jogos
no Centro Náutico Marinas, em Guaíra, PR, foram disputadas
quatro baterias, por haver apenas quatro canoas que foram sorteadas
entre os atletas. O povo Matis do Amazonas, contatado há apenas
15 anos, saía pela primeira vez de sua aldeia e para participar
da prova de canoagem, escolhendo uma das canoas. Porém como
havia o sorteio o coordenador indígena chamou os demais atletas
de outras equipes e fez a solicitação de que somente
os Matis não participassem do sorteio e escolhessem uma canoa.
Não houve restrição e os Matis participaram da
prova com a canoa escolhida.
Durante os III Jogos dos Povos Indígenas, em Marabá,
PA, os atletas Xicrin e Xavante estavam em uma disputa acirrada de
cabo-de-guerra, que era assistida com grande entusiasmo pelas mulheres
Xicrin, que com gestos e gritos em seu dialeto, torciam freneticamente
por seus atletas. Os Xicrin, não suportando a força
dos Xavante, foram ficando em desvantagem e cada vez mais próximos
da derrota. E as mulheres bradavam energicamente, ordenando força.
Apesar disso, os Xicrin acabaram cedendo e caíram ao chão.
Nesse momento, as mulheres, que estavam torcendo com muito entusiasmo,
passaram a reprimir seus atletas, jogando areia nos rostos dos índios
perdedores. Eles aceitaram a "punição" sem
revidar. Na cultura Xicrin, quando os homens não levam quantidades
satisfatórias de caça para a aldeia, recebem o mesmo
"castigo", o que demonstra um certo desprezo.
Todos os povos indígenas que possuem em suas tradições
a corrida de tora têm um detalhe em comum, que é deixar
as toras submersas no rio, após o corte e a preparação
do buriti, para que absorvam mais liquido e se tornem mais pesadas.
Nos III Jogos, em Marabá, PA, outubro de 2000, toda a estrutura
fora montada na Ilha da Praia do Tucunaré. Para se chegar ao
local, teria que fazer uma travessia de mais de 2000 m em barco à
motor, em aproximadamente 6 min, pois há uma forte corredeira.
Na chegada da delegação dos Erikbatsa, pela manhã,
na beira da praia, foram desembarcando imediatamente suas canoas do
ônibus, pois esse material ele trazem para serem usados na competição
de canoagem, colocando grande parte de suas bagagens nas canoas e
iniciando a travessia. Enquanto isso, lá da ilha, o capitão
da marinha naval e um dos coordenadores dos jogos, preocupado gritava
pelo rádio para que um barco maior fosse ao encontro e socorro
das cinco canoinhas, que desapareciam nas fortes ondas do rio Tocantins.
Mas o coordenador indígena replicou para que os mesmos ficassem
tranqüilos, pois não é à toa que os Erikbatsa
são também conhecidos como grandes canoeiros. Assim
eles chegaram remando em rumo reto e não em diagonal como os
barcos à motor daquele região fazem costumeiramente,
e desembarcaram nas Praias do Tucunaré são e salvos.
Na edição dos IV Jogos, em Campo Grande, MS, em outubro
de 2001, os Pareci de Tangará da Serra, MT, realizariam mais
uma apresentação do Xikunahity, e quando da preparação
para esse esporte, os Povos Enawê Nawê, praticamente isolados
que e nunca haviam saído de suas aldeias, assistiram ao treino
e disseram à coordenação que também praticavam
esse esporte. Foi então realizada o primeiro encontro histórico,
e uma partida dessa modalidade entre esses povos que não se
conheciam.
Carlos Terena