Ao Exmo
Sr. Presidente do Brasil
Dr. Fernando Henrique Cardoso
Ao Exmo.
Sr. Governador do Mato Grosso do Sul
Sr. Zeca do PT
Ao Exmo.
Sr. Prefeito de Campo Grande
Sr. André Puccinelli
Ao Querido Povo,
Durante uma semana nós 42 povos indígenas,
ficamos em Campo Grande, estado do Mato Grosso do Sul, cantando, dançando
com nossas cores, nossas flechas, bordunas e zarabatanas.
Ficamos olhando e sentindo o sol, a chuva, o ar, as estrelas nessas
terras de nossos antepassados.
Agora chegamos ao fim dos IV Jogos e todos vamos para nossas comunidades,
nossas famílias e nossos lares.
E o que vamos levar? E que vocês estão levando?
Aqui durante os Jogos todos nós fomos vencedores, inclusive
o homem branco, pois pudemos demonstrar ao mundo que nós os
Povos Indígenas acreditamos que apesar de todo preconceito
contra nós, o mundo moderno do colonizador está destruindo
a terra, o meio ambiente e a humanidade com uma paz que é falsa.
O nosso Brasil, que era 100% indígena não deve adquirir
esses costumes para dizer que é forte, porque nós somos
fortes e somos poderosos, basta olhar nossos rios como a água
potável, basta olhar nossas matas e a biodiversidade, basta
olhar nossa gente: brancos, negros e índios louvando o verdadeiro
Deus, com canções, danças e preces da verdadeira
força espiritual.
O governo do Brasil não pode mais em nome do desenvolvimento
e da economia, tornar o povo do Brasil mais pobre, pois isso já
está afetando nossas aldeias.
Exigimos respeito, e para isso queremos a demarcação
de todas as terras indígenas, para que nunca mais aconteça
o que fizeram com os nossos irmãos Kaiowá em Mato Grosso
do Sul. Durante os Jogos demonstramos mais uma vez que os povos indígenas
são fortes e resistentes e não aceitamos mais apenas
a sobrevivência, mas uma vida com dignidade e respeito.
Ao terminarmos os Jogos dos Povos Indígenas neste Estado do
Pantanal, queremos transmitir nossa mensagem a todos os moradores
dessas terras: aos irmãos indígenas para que fiquem
firmes nas tradições, nas línguas e nos costumes,
pois a terra indígena será demarcada como parte de uma
dívida histórica que não admite moratória.
Aos homens brancos desta terra, que vieram do mundo árabe,
do mundo asiático, da Bolíva e do Paraguai, para que
aprendam a amarem esta terra, pois um dia seu corpo irá também
alimentá-la. Aprendam a respeitar os Povos indígenas
como aliados de um futuro melhor e ensinem seus filhos a amarem essas
terras...
Ao homem negro, ao homem de pele da cor da noite, para que sigam tocando
seus tambores, seus cantos e sua voz como uma das primeiras raízes
da cultura e do povo do Brasil.
Nós Povos Indígenas declaramos nosso amor ao Brasil,
pois como disse um antepassado Chefe Tupi: Não descendo o forte,
do fraco. Nós os Povos Indígenas declaramos respeito
ao novo habitante do Brasil, inclusive como parte de nós mesmos,
então, como temer a nós mesmos?
Nós os Povos Indígenas declaramos nosso desejo de construir
um mundo melhor, pois se o futuro existe, queremos ser parte dele,
mesmo com nossas línguas e costumes diferentes.
Queremos um Brasil onde a base da convivência não seja
a discriminação, a separação, mas a união
e o respeito mútuo na busca de objetivos comuns, por isso viemos
aqui, nessa terra morena, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul.
Parque das Nações Indígenas
Hanáiti Mehún, 27 de outubro de 2001.
GUARANI - TERENA - KAIWÁ - KADIWÉU - GUATÓ -
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