JOGOS DOS POVOS INDÍGENAS

Entrevista com Carlos Terena

Pedro Peduzzi

Coordenador cultural indígena dos V Jogos dos Povos Indígenas, Carlos Terena, 48, é um dos responsáveis pelo sucesso deste evento esportivo que, antes de tudo, é festivo, mitológico, espiritual e religioso. Segundo ele, neste ano diversas novidades darão a tônica dos Jogos. Entre elas, novas modalidades esportivas e a participação, ainda que como observadores, de indígenas canadenses. Terena está otimista quanto a possibilidade de, futuramente, aproveitar os contatos feitos em recente viagem ao Canadá para fazer dos Jogos dos Povos Indígenas um evento mundial. Ele concedeu esta entrevista ao site da Funai pouco antes de embarcar para Maparanim, no Pará, onde estarão sendo realizados os Jogos deste ano.


De que tem servido os Jogos para os índios?

Quando criamos os Jogos, tínhamos o objetivo de nos conhecer. Mas a cada edição, coisas diferentes aconteciam. Passamos a ter auto-estima e a entender realmente quem somos. Cada povo pôde se conhecer melhor. Principalmente os jovens que, assim como qualquer branco ou não-índio, muitas vezes sofre pela falta de identidade. Ele começa a furar orelha e colocar brinco, se espelhando em outras pessoas que não são do meio cultural dele. Os indígenas também são assim. A partir de então, esses jovens que têm ido aos jogos têm se espelhado realmente na cultura do seu próprio povo. A gente tenta mostrar isso fazendo com que ele entenda que sempre vai ser o que é: Bororo, Xavante, Terena, Bakairi ou o que for. E que também é importante respeitar os outros povos como eles são, entendendo as diferenças entre eles.

Além disso, também, existem outros benefícios que a gente não conseguiu dimensionar. Existe a questão do alcoolismo e das drogas. Nas aldeias, nossos jovens não estão longe disso. Então a gente prega a prevenção de todos esses males. Há também a questão intercultural da gente com a sociedade envolvente, que desta vez será o pessoal da região de Marapanim - que brinca muito o Carimbó, uma dança que faz parte do folclore da região. Eles vão participar, conosco, da parte cultural. Este evento serve também para que a gente vá descobrindo também outros esportes que, muitas vezes, são esquecidos pela sociedade indígena.

Quais serão as novidades e as principais atrações da 5ª versão dos Jogos Indígenas?

Existem várias atrações. Diversos grupos vão participar pela primeira vez, como as mulheres da etnia Enauenê-Nawê. Eu realmente não sei como vai ser, digamos, esse impacto. Elas nunca saíram de suas aldeias, e subentende-se que nunca foram para a cidade, e, automaticamente, que elas nunca viram o não-índio nem conhecem outros povos também. Eu não imagino como vai ser esse impacto. Há também alguns povos que vão trazer esportes que nunca foram apresentado ao público, como uma corrida de tora que se diferencia por fazer uso de uma tora muito bem preparada e muito mais pesada do que as corridas tradicionais. Nessa nova versão, a tora é carregada apenas por dois atletas. Não sei exatamente como é que eles vão fazer, mas certamente devem ter uma sincronia muito boa, além da técnica de distribuição de peso e da força necessária. Eu já vi num filme, mas não sei como é ao vivo. São dois povos que vão trazer isso: o Gavião Kyikatêgê e os Xerente de Tocantins. O pessoal do Xingu provavelmente vai trazer o futebol de joelho para fazer uma demonstração. Tem também o Ronkrã, um esporte tradicional do Povo Kayapó do Pará, que se assemelha ao hóquei, por se jogar com taco.

Haverá também a presença de índios canadenses, que não conhecem a cultura tradicional indígena brasileira. Esta é a primeira vez que eles vão participar como observadores. Certamente vão fazer alguma apresentação também. E daí deve sair muita coisa de positivo. Há outras coisas que a gente não pode falar para não estragar a surpresa ou por fazer parte de algo muito comum nos Jogos, que é o imprevisto.

A relação com o esporte, no caso dos índios, é diferenciada?

Sim. O esporte no meio não-indígena é uma parte recreativa e sem festividades. E, hoje, é uma atividade de alto rendimento que o branco faz com profissionalismo, a ponto de se ter a necessidade de criar uma comissão de dopping para não deixar que o atleta trapaceie. Então essa é uma questão que já está indo além do extremo do corpo. Todo mundo está querendo ganhar, não importa como. Estão criando Maradonas e Ben Johnsons, sem falar de outros atletas que já até morreram em conseqüência do dopping. Quer dizer: para eles o que importa é ganhar, nem que o preço pago seja a própria vida.

O nosso esporte não tem nada disso. Ele começa primeiro com a questão da mitologia. Cada esporte tem uma mitologia e a parte espiritual e cerimonial, para depois chegar na parte do corpo. Tudo antecede o mexer com o corpo. Para mexer com ele, tem que, antes, preparar o lado espiritual, religioso e mítico, como é o caso do Uka-Uka e do Xikunahity, que é o futebol de cabeça. É o caso, também; da própria corrida de tora e outros esportes que as pessoas terão a oportunidade de conhecer. Eles têm uma razão de ser. Então essa é a uma diferença muito grande. E nós, enquanto coordenadores dos Jogos, jamais vamos incentivar que um grupo se quebre ou se mate para ganhar. Ganhar o que? Um corredor de toras que ganhe hoje, por exemplo, amanhã pode perder, e depois de amanhã pode ganhar - e assim sucessivamente. Não tem um prêmio ou um pódio para dizer que ele é campeão. Um pode ser bom na corrida de tora. Outro pode ser bom na flecha. Todo mundo é bom e ruim em muitas coisas, com diversidade e respeito. Nós criamos um lema que fala bem disso: “O importante não é ganhar nem competir. É celebrar.” Nosso esporte é uma celebração. Tem prêmios e medalhas. Claro que, como qualquer ser humano, os indígenas não querem perder em jogos. Mas, tradicional e culturalmente, eles não são assim.

Existem, entre etnias, rivalidades que ficam mais acentuadas durante as competições?

Não há, até porque nós não pregamos esse negócio de competitividade. Embora existam povos que foram inimigos tradicionais. É o caso dos Karajá e os Xavantes. Eles brigaram muito no passado por causa de território. Mas isso não acontece com os netos daqueles guerreiros que se pegaram no passado. Até por causa da diversidade, uma vez que não falam a mesma língua. Eles têm amizade, mas não ficam muito próximos. Eles se unem através do esporte, e se limitam apenas a conhecer um a cultura do outro. Já aconteceu de índios de diferentes etnias se conhecerem durante os Jogos e, mesmo sem falarem na mesma língua, se casarem. Nas modalidades o que se nota é um verdadeiro fair play entre os atletas.

Os Jogos Indígenas têm despertado interesse do público no exterior?

Não do público ainda, mas do segmento da Imprensa internacional de grande porte, que tem nos procurado muito para divulgar este que é um evento realmente tradicional. Eu acho que ainda não existe, no mundo, um evento como esse, do homem original, digamos assim. Estamos buscando na raiz das primeiras civilizações indígenas a pureza dos esportes no Brasil antes mesmo de 1500. Muitos países não têm disso que nós estamos juntando. É isso que os países do primeiro mundo vêm observar. Temos cuidado com o interesse de algumas ONGs que só têm o interesse de aproveitar do evento para ganhar dinheiro. Eles muitas vezes nos convidam para ir fazer apresentações remuneradas. Isso é muito perigoso porque a partir do momento que a gente começa a receber dinheiro para fazer apresentações, a originalidade e a espiritualidade vai embora. No fim, a gente pode acabar ficando igual aos índios de Honolulu ou de algumas áreas indígenas dos Estados Unidos. Os índios ficam quietinhos até a hora que chegam os visitantes. Aí, liga-se um sinal e todo mundo começa a dançar. Quando os visitantes vão embora, volta tudo ao normal. E as atividades culturais originais não podem ser assim. Quer dizer, quem manda lá é o dinheiro. Acabou a espiritualidade.

Já existe alguma estimativa de público para os Jogos? Quem é esse público?

Nós não estamos preocupados com quem vai assistir a gente. A nossa grande preocupação é nos encontrarmos depois de um ano para fazer o fortalecimento desse encontro. O público que vai estar presente será decorrência da propaganda que o governo do Pará vai fazer dentro do Estado e da região. Não tenho estimativa. Estava falando com alguns parentes que estou muito feliz de termos conseguido chegar onde chegamos. O público vai ser uma conseqüência disso. Mas eu acredito que vai haver um bom público porque tem muita gente da Imprensa falando disso, embora a propaganda fora do Brasil seja muito fraca. Mesmo assim acho que terá muita gente indo para conhecer os Jogos.

Como os Jogos são financiados?

Quando a gente começou a ter a idéia dos Jogos Indígenas, buscamos fazer com que o governo entendesse nosso apelo para fazer o evento. Porém, dentro do que manda a Lei, não existe uma coisa voltada diretamente para o esporte indígena. Quando o Pelé entrou, ele nos ouviu e estabeleceu recursos dentro do Ministério do Esporte e Turismo. Mas isso não é uma coisa oficial ainda. É oficiosa. Mas graças à nossa procura e às amizades que temos dentro do Governo, 70% desses recursos vem do Ministério. Os 30% restantes ficam por conta do Estado do Pará e do município que é sede dos Jogos. Não é uma coisa cara, mas também não é barata. O que é difícil é organizar tudo isso.

E as expectativas para os futuros jogos?

Provavelmente os jogos não serão realizados no ano que vem, quando pretendemos fazer um balanço. Com este, fizemos cinco jogos consecutivos. Este balanço vai servir para redimensionar e redirecionar os Jogos de uma maneira mais consciente. Acho que estamos precisando das críticas que nunca recebemos. Todo mundo aponta os aspectos positivos, mas não é possível que tudo esteja perfeito. Falta alguém para apontar o que não considera bom. Eu não consegui ainda quem me apontasse o que está negativo. Deve haver. Ainda vai aparecer, quem sabe. Não sei. Nunca ninguém criticou a gente abertamente, e a gente gostaria de receber uma crítica. Tomara que tenha, para a gente acertar. O retorno que a gente tem dos índios é que está tudo bom. Eles estão brigando para ir e levar cada vez mais gente. Então, você vê, as coisas estão muito boas para o nosso lado.

A expectativa para o ano que vem é de reavaliar o que já foi feito. E, futuramente, estudar as possibilidades de ampliar a cobertura para o continente americano, com o apoio dos indígenas canadenses. E, por que não, torná-lo um evento mundial. Estou quase convencido, principalmente depois de algumas viagens que fiz, de que este é, em nível mundial, o maior evento em termos de cultura realmente tradicional.

 

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