
Prova: É uma espécie de
futebol, em que o chute só pode ser dado usando a cabeça.
É um esporte praticado tradicionalmente pelos povos Paresi,
Salumã, Irántxe, Mamaidê e Enawenê-Nawê,
de Mato Grosso. É disputado por duas equipes que podem possuir
oito, dez ou mais atletas e um capitão. É realizada
em campo de terra batida, para que a bola ganhe impulso. O tamanho
do campo é semelhante ao de futebol, e conta com uma linha
demarcatória ao centro, que delimita o espaço de cada
equipe.
A partida tem início quando dois atletas veteranos, um de cada
equipe, dirigem-se ao centro do campo para decidir quem irá
lançar a bola ao outro, que deverá rebate-la. Isto é
decidido por meio de diálogo e a partida inicia com a primeira
cabeçada para o campo adversário, a ser recepcionada
por um dos atletas com a cabeça. Após isso, os dois
atletas deixam o campo, e não realizam outra atividade durante
o jogo inteiro. Na disputa, a bola não pode ser tocada com
as mãos, pés ou outra parte do corpo, mas pode tocar
o chão, antes de ser rebatida pela outra equipe.
Os atletas Pareci se atiram e mergulham com o rosto rente ao chão,
livrando o nariz de tocar o solo, o que provoca uma certa violência
no "chute" de cabeça e demonstram toda a habilidade,
destreza e técnica necessárias na recepçãoo
e arremesso da bola. A equipe marca pontos quando a bola não
é devolvida pelos adversários, ou seja, quando deixa
de ser rebatida. Quanto maiores as habilidades dos atletas que compõem
as equipes, mais acirradas
são as disputas, podendo durar até mais de quarenta
minutos.
Histórico: A lenda Pareci conta
que o Xikunahity foi criado pela principal entidade mítica
da cultura Pareci, o Wazare. Depois de cumprir sua missão de
distribuir o povo Pareci por toda a Chapada dos Parecis, Wazare fez
uma grande festa de confraternização antes de voltar
a seu mundo. Durante a festa, a entidade mítica mostrou a todos
a função da cabeça no comando do corpo, e sua
capacidade de desenvolver a inteligência e alcançar a
plenitude mental e espiritual. Ele também demonstrou que a
cabeça poderia ser usada em sua capacidade física, especificamente
na habilidade para com o Xikunahity. Foi nesta comemoração
que aconteceu a primeira partida deste esporte; ou seja, entrando
literalmente de cabeça.
Entre os Pareci, o esporte só é praticado durante grandes
cerimônias, como: oferta da primeira colheita das roças,
iniciação dos jovens de ambos os sexos, reforma das
flautas sagradas, caça, pesca e coleta de frutas silvestres
abundantes e a reincorporação de um espírito
novo em doentes terminais. A bola utilizada no jogo é peculiar,
pois é de fabricação dos Pareci, feita com a
seiva de mangabeira, um tipo de látex. O processo de confecção
tem duas etapas: na primeira, a seiva é colhida e colocada
sobre uma superfície lisa, onde permanece por certo tempo,
até formar uma camada ligeiramente espessa. Na segunda fase
faz-se a parte central da bola (núcleo), que inclui o aquecimento
da seiva de mangaba em uma panela e resulta em uma película.
O látex tem suas extremidades unidas, de modo a formar um saco
que será inflado com ar, por meio de um "canudo".
Depois, o núcleo ganha formas arredondadas e recebe sucessivas
películas de látex, obtidas da primeira etapa, até
formar uma bola, secar e resfriar, ganhando consistência suficiente
para pular. A bola tem aproximadamente 30 cm de diâmetro.
Desde o seu surgimento, a disputa do Xikunahity envolve apostas. Segundo
o administrador regional da Funai de Tangará da Serra/MT, Daniel
Cabixi, antigamente as apostas envolviam flechas, armas de guerra,
animais de estimação, objetos de uso pessoal, familiares
ou coletivos. "Dizem os mais antigos que, além de itens
pessoais, as mulheres também eram usadas nas apostas",
relata. Hoje, sabonetes, rádios, caixas de fósforos,
espingardas, pólvora, enfim, objetos particulares são
colocados como prêmios para as disputas. As apostas são
feitas discretamente e sem um compromisso explícito, valendo
o acordo da palavra. A equipe vencedora, além de ganhar os
objetos apostados, recebe um troféu simbólico. As mulheres
e crianças não têm participação
direta nas equipes que disputam o Xikunahity, pois é um jogo
masculino, cabendo a elas a participação na torcida
desse esporte. Já entre os nawenê-Nawê, o esporte
só é praticado dentro da festa do Yãkwai, festa
espiritual realizada durante seis meses. A primeira apresentação
oficial em público do Xikunahity aconteceu durante o II Jogos
dos Povos Indígenas, realizados em Guairá, PR, em outubro
de 99, pelos Pareci. Hoje, é um esporte de demonstração
neste evento. O Povo Enawenê Nawê participou pela primeira
nos IV Jogos, realizado em Campo Grande, MS, em outubro de 2001 e
apresentou esse esporte com os Pareci.