João Nonoy Krikati, primeiro índio bacharel em direito do Estado do Maranhão
 

Primeiro índio maranhense com formação universitária em Direito assume um compromisso com seu povo, o Krikati, na luta pelas causas ambientais e indígenas.
João Nonoy Krikati, aos 37 anos realizou seu grande sonho, com ajuda da Funai e da aldeia São José, sua comunidade indígena. Em 28 de dezembro de 2003, Nonoy concluiu a graduação no curso de Direito, na Universidade do Tocantins (Unitins). Apesar das dificuldades enfrentadas para cursar os cinco anos de faculdade, ele nunca desistiu de seu ideal e quer fazer de sua conquista uma melhoria para a sociedade brasileira e prestar concurso para Fundação Nacional do Índio, conforme está previsto. Da aldeia, Nonoy conversou a Funai, pelo telefone.

Funai: Como foi sua infância e juventude?


Nonoy: Nasci na aldeia São José, na comunidade indígena Krikati. Passei minha juventude aqui na aldeia, trabalhando nas roças e acompanhando a cultura indígena daqui. Muitos índios começaram a estudar e eu também resolvi estudar, no início com muita dificuldade de adaptação. Assim que terminei a 4ª serie fui para cidade de Montes Altos (MA) e como não tinha dinheiro para passar todos os dias da semana, eu e outros índios voltávamos a pé pra casa nos finais de semana. Terminando a 8ª série fui para Belo Horizonte (MG), onde passei um ano. Devido o frio e outras dificuldades, voltei pra minha comunidade. No ano seguinte, comecei a estudar novamente em Imperatriz/MA, onde completei meu 2º grau, fiz especialização em técnico administrativo. Em seguida, fiquei mais cinco anos na minha comunidade indígena estudando para o vestibular e ajudei na demarcação das terras. Prestei vestibular no fim de 1998 em Tocantins e fui morar em Araguaína. Com ajuda da Funai e alguns serviços extras que eu fiz, consegui ficar os cinco anos no Tocantins para concluir minha formação universitária. E hoje, estou passando uma temporada aqui na aldeia, em seguida estarei seguindo para a cidade montar meu escritório.

Funai: Qual a experiência adquirida?


Nonoy: Quero que a minha formação sirva como alerta, sou o ponto inicial para incentivar o meu povo a estudar e nos defendermos das diferenças que existem lá fora. Observei que na cidade se preocupam muito de forma individual e aqui há uma união do grupo muito grande e sabemos que não somos só um, devemos unir e buscar forças um no outro.

Funai: Quais as principais dificuldades iniciais?


Nonoy: A falta de recursos e a surpresa dos primeiros contatos com as leis foram surpreendentes, tomei conhecimento de coisas que eu nem imaginava. Tudo isso foi muito bom para ultrapassar obstáculos e mostrar para quem não acreditou em mim, que eu posso fazer e vou fazer.

Funai: Quais são os principais objetivos e qual deles pretende realizar em 2004?


Nonoy: Construir uma carreira política, passar no concurso Público e me especializar em direito ambiental e direito indígena. Quero ser um exemplo e incentivar minha comunidade indígena. Mas atuar na defesa do meu povo é a prioridade de sempre na minha vida.

Funai: Porque escolheu o curso de direito?


Nonoy: Quando estava concluindo o curso de Técnico em Administração tive uma matéria de introdução ao direito, que muito me interessou, desde então, inclui como sonho em minha vida.

Funai: Qual sua proposta como um futuro advogado?


Nonoy: Defender as causas sociais, em especial as ambientais e indígenas. Quero aproveitar para agradecer a sociedade brasileira e o meu povo, que me ajudou muito diante das dificuldades. E que todos fortaleçam sempre suas raízes e que dessas nasçam uma nova geração para assumir compromissos sérios com a sociedade, pois nesse ciclo um ser sempre depende do outro. Sou o 1º índio formado no Estado do Maranhão e quero ser exemplo para dar forças a toda população indígena do Brasil.

(entrevista por Ana Paula Sabino, estagiária da Funai)

 
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