| Emoção marca lançamento
do livro de Carlos de Araújo Moreira Neto Por Isabel Heringer (CGAE/Funai) |
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| Na última sexta-feira, dia 30 de setembro, a solenidade de lançamento do livro O Índio e a Ordem Imperial, de Carlos de Araújo Moreira Neto, emocionou convidados e servidores da Funai. Em discurso sobre o homem que foi seu professor e inspirador na paixão pelas causas indigenistas, o presidente da instituição, Mércio Pereira Gomes, chorou e comoveu a platéia. Aos 76 anos, o antropólogo e etnólogo Carlos de Araújo Moreira Neto é um mestre de toda uma geração que atua na política indigenista. Começou a trabalhar com índios em 1953, sob influência de Darcy Ribeiro, Curt Nimuendaju e Herbert Baldus, as maiores referências na antropologia brasileira. Nesses 52 anos, recuperou a história dos povos indígenas e escreveu diversos livros, inclusive em co-autoria com Darcy. Das conquistas aos problemas que envolvem a questão indígena, ele ainda acompanha de perto as discussões e ações do governo como um dos titulares do Conselho Indigenista da Funai. No livro O Índio e a Ordem Imperial, Moreira Neto faz uma análise profunda das marcas deixadas por um período histórico de mudanças, rebeliões e conflitos de terra. Sua obra tornou-se referência para estudiosos ainda como tese de doutorado. E agora, re-editada pela Coordenação de Documentação da Funai (CGDOC), proporciona uma reflexão importante sobre a política indigenista brasileira. Como já escreveu o sociólogo Octavio Ianni, outro mestre: “A memória é o segredo da história, do modo pelo qual se articulam o presente e o passado, o indivíduo e a coletividade. O que parecia esquecido e perdido logo se revela presente, vivo, indispensável”. Leia a seguir a entrevista com Carlos de Araújo Moreira Neto:
Como você começou a se interessar pela questão indígena? No fim da década de 40, eu trabalhava num jornal em Belo Horizonte, onde conheci o Brigadeiro Aboim da Aeronáutica, que cuidava do Parque do Xingu. Foi ele quem me colocou em contato com várias pessoas. Depois, eu fiz o curso de Ciências Sociais, e um dos professores tinha sido colega de Darcy Ribeiro no curso da Escola de Sociologia e Política. Era o professor Fernando Altem Felder, que estudou os índios no Xingu. Foi através dele que, em 1953, conheci o Darcy. Na época, o Darcy era diretor do Museu Índio, onde eu fiz o curso de antropologia. O curso acabou prematuramente por causa das mudanças políticas. O ministro da Agricultura que cuidava do Serviço de Proteção aos Índios resolveu perseguir todo mundo que era a favor de índio. Um cara horroroso! Tirou o Darcy do Museu do Índio, acabou com o curso e fez uma limpeza geral. Então eu saí de lá e fui trabalhar com o Eduardo Galvão, que também tinha sido colega do Darcy e era diretor de antropologia do Museu Goeldi. Eu passei uns três ou quatro anos em Belém e voltei pra trabalhar com o Darcy na Faculdade Nacional de Filosofia. O Golpe de Estado [ditadura militar, 1964 - 1984] veio, o Darcy foi exilado e eu fiquei outra vez sem trabalho. Depois, consegui um emprego, através do Darcy, no Instituto Indigenista Interamericano [México] e trabalhei uns anos lá. Quando voltei, fui trabalhar em São Paulo na faculdade onde o Fernando Altem Felder dava aula. Fiquei lá muito tempo, com um salário miserável, muito vigiado pelos militares. Em 72 eu finalmente consegui terminar o doutorado, que deveria ter feito 10 anos antes. Fui trabalhar no Rio outra vez. O Darcy Ribeiro já tinha voltado do exílio. Me arrependo de muitas coisas, mas não de trabalhar com índio. Uma das poucas coisas que eu tive nesse mar de fracassos foi trabalhar com índio e gostar de índio. Por que “mar de fracassos”? É como dizia o Darcy, “minha vida é uma sucessão de fracassos”, e era mesmo. Ele criou a Universidade de Brasília, não pôde trabalhar lá. Foi exilado. De certa maneira, é um fracasso que traz muito orgulho. Eu ficaria péssimo se eu tivesse feito sucesso durante a ditadura. Qual a influência de Darcy Ribeiro nessa obra? É total porque ele era meu professor de pós-graduação e mestrado, e o tema que eu escolhi nessa tese retoma a idéia do Darcy usada no curso de mestrado em História da Faculdade Nacional de Filosofia. Eu trabalhei junto aos alunos e, posteriormente, usei esse material para escrever a tese. Além de tudo mais que eu aprendi com o Darcy. Ele me influenciou em quase tudo. Por que você demorou tanto tempo para publicar esse livro? Eu havia publicado muita coisa, né. Essa tese foi feita em 1971, mas de maneira muito acidentada, quando eu estava nos piores momentos, na ditadura militar, desempregado e tal. Nem sequer consegui escrever o livro, eu ditei pra uma moça, uma velha comuna chamada Maria da Graça Dutra, nora do velho Carlos Chagas, militante comunista, que foi presa e exilada. Quando ela voltou em 71, estava sem emprego, sem nada, então eu contratei o serviço dela. Ela bateu esse troço todo no computador. Eu falava e ela escrevia. Foi um custo pra sair. Agora com a re-edição, saiu uma beleza de livro. Estou muito orgulhoso. Mas, acima de tudo, o CGDOC é que fez um grande serviço. E por que essa parceria com a Funai? Desde 55, eu estava ligado ao Serviço de Proteção aos Índios (SPI). Na época, o Darcy era um dos diretores e quando ele foi demitido, me demitiram também. Comecei a colaborar com a Funai em 67. Sabia que na instituição não existia um arquivo de documentos e, então, propus à Funai que eu percorresse o Brasil inteiro para recolher esses documentos. Passei por Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e nordeste e sul do Brasil... Qual é a sua opinião sobre a atuação da Funai hoje? No começo era uma coisa horrorosa. Quem viveu naquela época lembra. O Eduardo Galvão, colega do Darcy, fez uma carta para o presidente da Funai na época porque o governo estava fazendo a Transamazônica e ia passar por cima do que houvesse, de índio, de tudo. E o Galvão dizia pra ele: “mas senhor presidente, existem inúmeros grupos indígenas que vão ser afetados, a Funai não vai tomar providência nenhuma?”. E o presidente respondia: “senhor coordenador, o que a Funai faz é constatar o fato de que vão fazer a Transamazônica e os índios que estiverem no percurso vão pagar o preço. Mas não vou impedir essa obra”. O Galvão se afastou da coordenação. Era horrível. Os caras eram totalmente contra índio. Todos com essa idéia de que os milicos estavam aí para consertar o Brasil e que índio era um “aspecto negativo” da realidade nacional. Então, não existia política indigenísta? Não, tinha política antiíndio. A coronelada toda era um horror. Apesar disso, algumas pessoas sobreviveram e conseguiram fazer muita coisa contra os milicos no poder, contra a política. São pessoas admiráveis e pagaram um preço danado. Quando passou a existir uma política indigenista favorável? Não levou muito tempo. Eu acho que os primeiros sintomas disso foram no fim dos anos 70. A coisa começou a abrandar e a ser mais favorável para o índio. Nós sobrevivemos a isso tudo. Eu nunca tive muito tempo formalmente na Funai, eu prestava serviço, muito mal pago. Fui demitido várias vezes. Mas nunca tive a responsabilidade e o engajamento do Xará [Ezequias Paulo Heringer Filho, indigenísta que morreu em 1996], por exemplo, e de outros. Alguns morreram, outros decidiram trabalhar em outra coisa e outros continuam aí. E em relação ao Conselho Indigenista? O Conselho, na maior parte desses anos da ditadura, era antiindígena. Era um pessoal mais conservador possível. Cheios de preconceito contra índio, um horror! E os índios entraram pelo cano. Apesar disso, nesse período, os índios aumentaram muito em número e andaram razoavelmente contra a corrente. O governo fazia tudo para extingui-los de uma vez e eles aumentaram, o que forçou a Funai -- bem ou mal -- a agir. Hoje você acha que o Conselho influencia numa política indigenista favorável? Indiretamente, claro que sim. O Mércio é um antropólogo de sucesso, com uma tradição de identificação com a causa indígena. Envolveu-se pessoalmente com a demarcação de várias áreas dos índios com os quais trabalhou. Então, ele tinha uma experiência anterior muito grande. Era professor da universidade e conseguiu chegar à presidência da Funai. Hoje ele faz um grande trabalho e realmente acho que a Funai está passando por uma grande renovação. Apesar de todos os pesares, as terras indígenas representam, mais ou menos, 12% do território nacional. É surpreendente esse povo tão discriminado, tão humilhado conseguir essa quantidade de terra. A luta agora é transformar em posse efetiva, que, em muitos casos, continuam sendo invadidas. É uma briga feia. Ao mesmo tempo, existem órgãos que são hoje menos hostis à política da Funai. Têm também os funcionários que trabalham aqui, muitos deles são meramente burocratas, mas outros são dedicados e leais aos índios. Todas as agressões do passado teriam dado resultados mais negativos se não fosse o empenho de pessoas como o Xará. Eu acho que se for feito um balanço geral, a conclusão a que se vai chegar é de que pelo menos 30% dos funcionários da Funai são ativos e leais aos índios, o que é surpreendente. Os índios são um produto desse grupo relativamente pequeno, mas muito eficiente, como Orlando Villas Bôas. Não era fácil trabalhar e ainda tem muita coisa a ser feita. Não adianta dizer que “pronto, acabou, já homologamos a Raposa Serra do Sol”. Agora mesmo queimaram as pontes de lá. Não é brincadeira. Tem alguma coisa que você quer registrar? Eu acho que por mais que a gente possa valorizar o sacrifício dos funcionários da Funai, o sacrifício pago pelos índios é sempre muito maior. É dramático. Povos inteiros desapareceram, enquanto outros cresceram e se multiplicaram. A longo termo, o resultado, apesar de todo drama, é positivo. Mas são populações que sofreram toda sorte de violência e continuam a pagar o preço da degradação, da miséria, da marginalidade. Algumas populações mais bem sucedidas, como os Guajajara, são um dos exemplos da degradação em que os povos indígenas estão metidos. Eles se transformam, cada vez mais, em um misto de índios com bandoleiros, fazem grupos de bandidos, com toda parafernália de bang bang, assaltam caminhões, ônibus, o diabo-a-quatro. É uma guerra. |
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