Entrevista com Elias Januário historiador e coordenador do curso de licenciatura do terceiro grau indígena da Universidade Estadual do Mato Grosso - Unemat.

A Unemat realizou o seu primeiro vestibular indígena em junho do ano passado com 180 vagas para o Mato Grosso e vinte para o restante do País. A universidade recebeu 476 inscrições. A iniciativa é inédita e instituições de outros estados - Amazonas, Roraima, Tocantins - estão debatendo a criação do terceiro grau indígena.

Depois de muitos anos de discussões sobre a criação do terceiro grau diferenciado e dirigido para licenciatura dos professores indígenas, concretizou-se a proposta pioneira da Unemat. Quais foram os fatores determinantes para iniciativa realizar-se?

A reivindicação dos professores e lideranças indígenas pela formação continuada, ou seja, que os professores das aldeias não ficassem apenas com a formação em nível de magistério, mas que tivessem a oportunidade de ampliar os seus conhecimentos acerca do mundo dos não-índios. também a necessidade de abrir nas escolas das aldeias as séries de 5ª a 8ª e o 2º grau. a maioria das crianças indígenas que concluia a 4ª série tinha que sair da aldeia para continuar os estudos, tinha que vir para a cidade. com isso, se afastava das
tradições culturais de seu povo e na maioria dos casos se envolvia com alcoolismo,drogas e prostituição. ficavam à margem da sociedade envolvente. além de serem discriminadas.

Agora que a licenciatura está no segundo semestre dá para fazer uma avaliação do que poderá significar o curso para as comunidades indígenas?

Estes cursos representam uma nova prespectiva de futuro, uma relação mais igualitária entre brancos e índios, na medida em que os professores indígenas passam a conhecer o universo do não-índio. tem importância também no fortalecimento da identidade dos povos envolvidos na medida em que os saberes e conhecimentos tradicionais de cada povo são valorizados e reconhecimos pela academia. a língua indígena tem sido fortalecida e o português trabalhado com mais propriedade neste projeto.

A criação de um curso específico e diferenciado para dar continuidade à formação de professores indígenas capazes de oferecer uma educação compatível com os anseios das comunidades é parte da nova política educacional do MEC. Não chegou um pouco atrasada?

Aqui em mato grosso estamos trabalhando com a educação intercultural desde 1994. realizamos o projeto tucum (magistério) e agora o 3º grau. acreditamos que a política do mec possa fortalecer a nossa luta e ampliá-la para os outros estados da federação.

Foi difícil reunir pessoal especializado para criar o terceiro grau indígena? Quanto tempo durou a preparação curricular?

Trabalhamos durante 04 anos para montar o projeto. a demora resultou da nossa persistência em que as comunidaes indígenas participassem da elaboração do projeto. durante todos esses anos os representantes indígenas discutiram na comissão a montagem desses cursos. queríamos realmente algo novo na política, algo que contasse realmente com a efetiva participação dos índios. não queríamos mais um projeto feito de branco para índio, mas sim construirmos junto com os professores e lideranças indígenas um projeto que refletisse os seus anseios e projetos de futuro. é isso que faz da nossa proposta um sucesso, foi isso que fez e continua fazendo ela dar certo. até hoje os representantes indígenas participam das decisões do projeto. quando iniciamos as aulas, a primeira coisa que criamos foi um colegiado de acadêmicos que participam das decisões do projeto. os nossos professores indígenas são também gestores desse projeto, participam das deliberações e ajudam a resolver os problemas que vão aparecendo.

O curso é reconhecido pelo Ministério da Educação?

Como somos uma universidade estadual, não dependemos do reconhecimento do mec e sim do conselho estadual de mato grosso, o que já aconteceu. no entanto, apresentamos esse projeto ao comitê de educação do mec que deu parecer favorável a sua execução.

Como você avalia a passagem dos 200 professores indígenas pela segunda etapa presencial, na qual eles saíram de suas aldeias e vieram para o campus da Unemat em Barra do Bugre/MT cumprir uma carga horáriaintensa, durante 30 dias. Eles estranharam, acharam pesado, ameaçaram desistir?

Até o momento não temos nenhuma desistência. esta segunsda etapa foi mais tranquila do que a primeira porque organizamos melhor, resolvemos velhos problemas. os acadêmicos indígenas também estavam mais a vontade, mais confiantes, começaram a entrar na rotina de uma universidade, como por exemplo, o uso da bilbioteca, a apresentação de seminários, etc.

Quando começará a próxima etapa de estudos e pesquisas nas aldeias e quando os professores indígenas voltarão para o campus?

A próxima etapa de estudos cooperados de ensino e pesquisa intermediária terá início em março e vai até o final de junho. neste período reunimos em pólos e visitamos as aldeias para prestar assessoria aos acadêmicos. A próxima etapa de estudos presenciais será em
julho de 2002.

Qual o ano do término do curso e quando haverá um novo vestibular indígena na Unemat?

O projeto tem previsão de término em janeiro de 2006, quando realizaremos a 10ª etapa, completando os 05 anos.


Para finalizar, gostaria de lembrar que este projeto é resultado da parceria entre a SEDUC/MT, unemat e funai e conta com o apoio da prefeitura municipal de Barra do Bugres/MT. lançamos no dia 19 de janeiro a publicação do projeto, que está sendo encaminhado a todas as universidade e instituições ligadas à educação indígena no Brasil

 
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