O GRANDE CHEFE PENON
(Fernando Schiavini )
Morreu no dia 07 de fevereiro, na Aldeia Pedra Branca, Terra Krahô, estado
do Tocantins, o grande chefe PEDRO PENON. Melhor seria dizer " o grande sábio
PEDRO PENON". Na verdade, ele foi as duas coisas: um grande chefe de seu
povo até sua maturidade e um grande sábio em sua longa velhice.
Penon morreu com aproximadamente 95 anos, como morrem os grandes sábios:
apagando-se lentamente como a chama de uma vela, dando conselhos para seu povo
até seu último momento de lucidez.
O que sei de sua vida
foi contado por ele mesmo, em fragmentos de conversas, durante nossa convivência.
Ele era ainda bastante jovem, quando foi praticamente convocado pelo seu povo
para assumir a chefia da aldeia Pedra Branca, a maior da três aldeias Krahô
existentes naquela época. Ele estava então iniciando seus estudos
na cidade de Carolina-MA.. Já sabia ler e escrever razoavelmente e talvez
por isso tenha sido chamado. O momento era de extrema gravidade. O povo Krahô
acabara de sofrer um grande massacre, desfechado pelos criadores de gado, na região
de Itacajá. O ano era 1940. O governo havia mandado tropas para prender
os responsáveis pela chacina e falava em criar uma " Inspetoria do
S.P.I." no território Krahô, que nem demarcado era. O povo estava
amedrontado e sem rumo Muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo: soldados do exército,
sertanistas, indigenistas, jornalistas, muitas propostas, o governo falando em
demarcar um território fixo, que precisava ser delimitado. O momento exigia
um líder capaz de entender minimamente toda aquela complicação,
que soubesse conversar e negociar com aquela gente. Foi aí que, provavelmente
por ser o único Krahô que se arriscara fora de seu povo para estudar,
que convocaram o Penon e fizeram dele um " Parrití" (chefe de
aldeia), apesar de, na época, ser muito jovem para para o cargo, segundo
os padrões Krahô.
Penon se tornou então um grande
chefe. Liderou a delimitação do território Krahô, com
320.000 hectares, que representa hoje talvez a maior área contínua
de cerrados preservada de todo o Centro-Oeste Brasileiro. Ao perceber que estava
demorando muito os trabalhos de demarcação, encetou uma longa viagem
a pe´, de sua terra à cidade de Goiânia e daí, em várias
conduções ao Rio de Janeiro, onde conseguiu falar com o Presidente
Getúlio Vargas.
A terra Krahô só viria a ser demarcada
definitivamente em 1951. Penon liderou então a retirada dos inúmeros
posseiros que haviam ficado localizados no interior do território e cuidou
sem cessar para que eles não retornassem.
Além de um grande
líder, Penon era também um diplomata. Intermediou durante anos a
difíceis e complicadas relações, tanto com os agentes do
governo que, de fato, havia instalado uma " Inspetoria " do SPI. na
Terra Krahô, quanto com os regionais, apaziguando e acomodando uma situação
ainda bastante conflituosa com o seu povo. Assim, angariou fama de homem sério,
enérgico, honesto e cumpridor da palavra empenhada, tanto com os funcionários
do governo como em toda a região do entorno da Terra Krahô.
Penon permaneceu como chefe da Pedra Branca até o ano de 1985, quando passou
a responsabilidade para seu filho mais velho. No dia em que cumpriu esse ato,
apoderou-se de um bastão, mais pela simbologia que por necessidade e passou
a ser o " mekoré" ( velho, sábio) da aldeia.
Mesmo assumindo o papel de ancião, empreendeu talvez o seu maior feito
guerreiro: liderou, no ano de 1987, uma comitiva de jovens Krahô à
cidade de São Paulo, em busca da KYIRÉ - a machadinha de pedra semilunar,
sagrada para os Krahô, que se encontrava no Museu Paulista. Para isso, permaneceu
em São Paulo durante três meses ininterruptos. Todos os seus acompanhantes
retornaram após alguns dias de permanência na capital, enviando outros
guerreiros em seus lugares. Penon se investira de tal forma da figura guerreira
em busca de seu tesouro cultural, que aparentemente nada sentia, as despeito de
poucas vêzes ter saído de sua aldeia. Por isso ganhou um apelido
de seus companheiros de aventura: " Ikran-ken" - cabeça de pedra.
Levou de volta a machadinha e iniciou um longo processo de retransmitir aos jovens
as histórias e os cantos a ela ligados.
Aos poucos foi ficando
cego, por conta de uma catarata que lhe cobria uma das vistas. A outra já
havia perdido há tempos, por causa de uma operação mal feita,
realizada por estudantes universitários em Goiânia. Por isso negava-se
terminantemente a se operar novamente. O processo de avanço da cegueira
consolidou-se definitivamente há cerca de dez anos. Passou então
a se locomover pouco, puxado pelo seu velho bastão. Com o tempo, seus membros
se atrofiaram e ele não caminhava mais. Mas fazia questão absoluta
de participar de todas as reuniões importantes da aldeia, nem que para
isso tivessem que carregá-lo nas costas. Jamais se negava, a qualquer hora
que fosse, de contar as histórias antigas de seu povo, para quem o procurasse.
Nos últimos anos foi também ficando surdo.. Nenhum tremor
de mãos, nenhum gemido, imprecação ou reclamação,
a não ser de que seu povo não o procurava mais como antes e ele
queria continuar ajudando "com a garganta", como dizia.. Morreu quieto,
sereno, como só os grandes sábios sabem morrer .
Tive o
grande privilégio de ser amigo e discípulo de Penon por mais de
vinte anos. Credito a ele grande parte da minha experiência acumulada e
de posturas diante da vida. Considero-o mesmo um grande mestre e ele próprio
me contou, há poucos anos, já cego e sem poder se locomover, que
tinha constantes visões espirituais e que conversava com PAPAM - DEUS.
Penon vai virar pássaro, quati, tatu, árvore, estrêla ou qualquer
outro ser, nas longas histórias orais de seu povo, em sucessivas gerações,
queira Deus, através dos novos milênios.
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