O ano de 2003 começou de forma
diferente para os brasileiros. A esperança dominou as multidões
que aguardavam, ansiosas, transformações há longo
tempo prometidas e muito pouco realizadas. Com os povos indígenas
não foi diferente.
Desde os primeiros dias do novo governo, representantes de diversos
povos indígenas acorreram ao Palácio do Planalto para
prestar suas homenagens ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva
e dele ouvir uma palavra de ânimo e afirmação de
sua determinação pela mudança. Essa esperança
deu o tom à visão e às expectativas dos povos indígenas
em relação ao seu futuro, bem quanto ao seu relacionamento
com as diversas instâncias do Estado brasileiro e instituições
não governamentais que trabalham em prol dos povos indígenas.
Ocorre que a herança recebida pelo presidente Lula - incluindo
toda sorte de passivos sociais, culturais e econômicos - fez com
que o governo realizasse uma série de intervenções
administrativas de grande profundidade no Estado brasileiro. Todos sabemos
o quanto a chamada máquina administrativa e os recursos para
investimento social foram “enxugados” por medida de contenção
de despesas. Muita gente ficou aborrecida com as medidas e externou
suas reclamações sem pudor. O governo sabia o que estava
fazendo porque era o que precisava ser feito. Sua fidelidade ao povo
brasileiro não diminuiu, e os resultados só nesse final
de ano é que começaram a aparecer. Os apressados estão
começando a entender de novo.
Problemas na Funai
A Fundação Nacional do Índio (Funai), principal
órgão de atuação da política indigenista
do Estado, sofreu muitíssimo com as medidas administrativas inicialmente
tomadas. Herdeira de um orçamento já bastante pequeno,
com um quadro de pessoal que só decresce há mais de 16
anos, e com uma quantidade cada vez maior de problemas para resolver,
a Funai sofreu com a saída, por aposentadoria, de muitos de seus
quadros, com a diminuição de mais de 70 funções
gratificadas e com o apostilamento para baixo de mais de três
centenas de funções gratificadas, especificamente aquelas
que servem de suporte financeiro e administrativo para os cargos de
chefia de postos indígenas, justamente a atividade-fim mais importante
do órgão.
A primeira equipe indicada para comandar o órgão sentiu
as conseqüências dessas mudanças e teve muitas dificuldades
para exercer seu papel. As expectativas frustradas levaram a um desassossego
e a desencontros permanentes entre diversas representações
indígenas e a direção do órgão, resultando
no afastamento e demissão de seu presidente. Por um breve tempo
o governo procurou encontrar uma saída diferente para a realização
de uma política indigenista. Com isso, diversos ministérios
passaram a exercer ações indigenistas mais abrangentes
do que aquelas já consignadas. A partir de setembro, uma nova
direção, nomeada pelo presidente da República,
com a coadjuvação de indigenistas experientes, passou
a dirigir a Funai e dar a ela um rumo mais equilibrado.
Nesse meio tempo, diversas organizações não governamentais
vinham observando os acontecimentos e pouco caso faziam para entender
o que o governo estava pretendendo. Passaram a fazer críticas
acerbas, como se o presidente Lula estivesse deixando de lado seus compromissos
históricos em prol dos índios, exigindo medidas drásticas
que nunca haviam exigido antes em outros governos.
Exigências
Algumas delas passaram o ano dizendo que, por desleixo, a luta pela
terra tinha se exacerbado e que 23 indígenas teriam tombado nas
trincheiras dessas disputas. Nesse rol, que a bem da verdade não
passa de cinco, contabilizaram todos os tipos de mortes, desde aquelas
por atropelamento em estradas, as resultantes de brigas pessoais entre
índios e não-índios e até as resultantes
de brigas entre índios.
Por sua vez, as organizações indígenas também
se apressaram a fazer críticas ao governo, exigindo não
as apurações de mortes que eles sabem não serem
resultado em sua grande maioria de disputas por terras, mas maior participação
nos quadros dirigentes da Funai. Com efeito, a Funai tem cerca de 700
funcionários indígenas, entre eles muitos com cargos de
função administrativa superior, dirigindo postos indígenas,
administrações e coordenações.
O quadro atual da entidade é de tão somente 2.177 funcionários.
Há 20 anos, quando eram menos de 200 mil índios e menos
de 500 territórios reconhecidos, a Funai tinha 5.600 funcionários.
Hoje, esse quadro, diminuído em quase dois terços, continua
firme no trabalho de apoiar e assistir a mais de 410 mil índios,
divididos entre 220 povos, lutando pela demarcação e preservação
de 620 terras indígenas, que compreendem cerca de 12,5% do território
brasileiro. Não é tarefa simples; ao contrário,
exige muito discernimento político e administrativo, bem como
dedicação e abnegação por parte dos servidores
e daqueles que são convidados a colaborar.
Concurso público
A participação de índios nos quadros da Funai é
desejada. Porém, não em forma de cooptação,
como vinha sendo feita, mas dentro dos princípios da administração
pública, por competência reconhecida e mediante concurso
público, a ser feito para preencher 500 das mais de 3 mil vagas
existentes. É por elas que se espera uma nova participação
de índios e não-índios interessados em trabalhar
pela questão indígena.
A Funai é um órgão do Estado brasileiro. Tem obrigações
para com os povos indígenas e para com a nação
brasileira. Funciona como se fosse um intermediário entre os
povos indígenas e a sociedade brasileira em geral. O papel de
tutora, que lhe é conferido pelo Estatuto do Índio (cujo
30º aniversário foi comemorado dia 19 de dezembro de 2003),
é que lhe permite exercer essa função. Ser tutora
nunca significou um impedimento ao exercício dos direitos de
cidadania e aos direitos especificamente indígenas, como já
frisou o eminente jurista Dalmo Dallari, e sim um acréscimo de
garantia especial do Estado brasileiro para com os interesses maiores
dos povos indígenas.
Muitas pessoas, inclusive antropólogos, advogados, parlamentares
e curiosos em geral, querem retirar esse instrumento jurídico
em um novo Estatuto que está para ser discutido nos próximos
meses no Congresso Nacional. Acham que não corresponde aos novos
tempos em que muitos povos indígenas, sobretudo muitos jovens
indígenas educados no sistema educacional brasileiro, se sentem
constrangidos, se não inferiorizados, pela idéia de serem
tutelados. Criar um novo instrumento jurídico que tenha as funções
de defesa dos direitos específicos dos povos indígenas
vai ser um repto à inteligência jurídica nacional.
A retirada da tutela talvez seja um risco para a defesa daqueles povos
que continuam a exercer sua vida cultural nos moldes tradicionais e
que ainda não querem se inserir nos meandros da vida política
brasileira.
Responsabilidade
A política indigenista do Estado brasileiro não é
executada exclusivamente pela Funai. São diversos os ministérios
e instituições governamentais que atuam diretamente com
os povos indígenas. O Ministério da Saúde, através
da Funasa, é que cuida das questões da saúde, tendo
um orçamento que chega a uma vez e meia o orçamento da
própria Funai. O Ministério da Educação
cuida da educação indígena. O Ministério
do Meio Ambiente tem orçamento de largo espectro para apoiar
projetos relacionados ao meio ambiente e à produção
econômica. Por sua vez, as organizações não
governamentais têm recursos de diversas ordens que são
aplicados em projetos feitos diretamente com os próprios índios,
em geral com as associações de lideranças indígenas
mais jovens que possuem uma visão mais urbana e integrada (apesar
do discurso contrário) com o mundo moderno.
Entretanto, quando qualquer coisa dá errado na realização
prática de políticas indigenistas, invariavelmente a Funai
é a culpada. É preciso que a sociedade brasileira se dê
conta de que há outras instituições com atuação
indigenista e que conseqüentemente seja capaz de cobrar delas a
responsabilidade devida. I
O Estado se fez responsável pela questão indígena
desde 1910. Durante os anos de existência do antigo Serviço
de Proteção Indígena (SPI), criado pelo marechal
Cândido Rondon, e até recentemente pela Funai (criada em
1967), quase tudo que concernia a problemas de relacionamento entre
índios e não-índios estava nas mãos desses
órgãos. Hoje não é mais assim. Muitos órgãos
têm seu peso na política indigenista e, portanto, exercem
atividades pelas quais são responsáveis. As soluções
para os graves problemas de demarcação e garantia de territórios
indígenas estão ficando cada vez mais exíguas,
precisamente pela expansão da agricultura e pecuária em
áreas tradicionalmente ocupadas pelos povos indígenas.
Levantar a voz em prol dessa causa é um ato de nobreza do povo
brasileiro. Apontar os equívocos de atuação indigenista
de todos os órgãos concernentes, estatais ou privados,
é um dever, ao qual deve se seguir o reconhecimento integrado
do problema. Ao final, ajudar a buscar soluções é
um ato de sabedoria, para o qual conclamamos a todos.
O governo Lula é um governo de esperança e de ação.
O ano de 2004 confirmará seus propósitos na política
indigenista brasileira.
Mércio P. Gomes é antropólogo, autor do livro O
Índio na História (Vozes 2002) e presidente da Funai
Nesta semana, excepcionalmente, a seção Debates traz um
único artigo. Trata-se da resposta à polêmica iniciada
na edição 42, quando foi publicado artigo de Éden
Magalhães, secretário-executivo do Conselho Indigenista
Missionário (Cimi), sobre a política indigenista do governo
Lula.