Mércio
Pereira Gomes
Antropólogo e presidente da Funai
A imprensa especializada, ao longo das últimas
décadas, tem prestado relevantes serviços à causa
indígena, ao informar e esclarecer a opinião pública
acerca dos vários aspectos da complexa questão indígena,
sobretudo sobre os graves problemas acarretados pelo processo de interação
interétnica.
Reportagens, artigos e ensaios trazem à luz, para a melhor compreensão
do grande público, informações e análise de
grande valia sobre as 218 étnicas do país. Graças
aos esforços da mídia, a população conhece
melhor os chamados brasileiros originários, com seus dramas existenciais,
suas dificuldades de subsistência e os problemas que enfrentam em
virtude das profundas mudanças ocorridas nos arredores e mesmo
no interior de suas terras.
Como vivem os nossos índios na atualidade? O que produzem, como
produzem, para que produzem? Suas culturas se modificaram para enfrentar
os desafios do relacionamento com a sociedade brasileira; alguns a ela
se adaptaram, sempre com dificuldades, há mais de 200 anos, outros
há pouco mais de 50 anos.
Entre as mudanças verificadas no dia-a-dia dos indígenas
estão aquelas de ordem econômica, a que os antropólogos
denominam economia de subsistência. Mesmo assim, eles continuam
a ser índios, partilhando sentimentos coletivos, sociabilizando-se
por uma ideologia de igualitarismo social e com uma visão de mundo
própria, em que novas sínteses do passado com o presente
estão sendo estabelecidas.
A esse propósito, nas minhas primeiras declarações,
logo após assumir a presidência da Funai, referi-me à
necessidade de se implementar medidas voltadas para a viabilização
da auto-sustentabilidade dos povos indígenas, ressalvando enfaticamente
que a condução desse processo deveria, necessariamente,
contemplar também a preservação e a promoção
do modo de funcionamento de suas respectivas economias tradicionais, ou
seja, produzir excedentes sem criar desigualdades nem desarticular seus
sistemas de valores e crenças.
Receio que os propósitos por mim enunciados tenham sido mal interpretados
por um ou outro analista, pois nos foi atribuída a intenção
de introduzir mudanças radicais nas economias dos índios,
que os levariam a deixar de ser índios.
Obviamente, enquanto antropólogo, enquanto homem público
e cidadão consciente da importância capital dessas culturas
tradicionais, enquanto referências da própria identidade
nacional, não seríamos nós que iríamos intentar
contra a integridade delas.
Ao contrário, entendemos que a autonomia econômica significa
compatibilizar sua produção com as demandas de suas culturas
respectivas. Essas demandas não são mais exclusivamente
aquelas ditadas por suas culturas tradicionais e sim, aquelas decorrentes
do seu relacionamento com a sociedade abrangente.
Não é precisamente isso o que está ocorrendo com
todas as sociedades indígenas, exceto com aquelas que se mantêm
fora do relacionamento interétnico? Não produzem os índios
do alto Xingu artesanato para venda? Por acaso, várias etnias não
comercializam os direitos de uso de suas imagens para a produção
de filmes e até anúncios publicitários?
Seria ocioso mencionar a variedade de produtos que quase todos os povos
indígenas levam ao mercado brasileiro. Do artesanato a produtos
agrícolas, de extrativos silvestres a gado – e -- por que
não mencionar? -- da mão-de-obra agrícola ao serviço
público. Parte dessas atividades é apropriada individualmente,
mas uma boa porção dela é consumida coletivamente.
Hoje em dia, os parcos benefícios da aposentadoria compõem
grande parte da renda coletiva em muitas sociedades indígenas.
Todos que trabalham com povos indígenas sabem disso e sabem, também,
que a política indigenista brasileira não está mais
sob a responsabilidade exclusiva da Funai. A educação indígena
está no MEC; a saúde está com a Funasa; o desenvolvimento
etnoecológico com o Ministério do Meio Ambiente, e a defesa
de seus direitos constitucionais é compartilhada com o Ministério
Público. Estados e municípios atuam diretamente junto aos
povos indígenas em vários setores, especialmente na educação,
por meio do Fundef, e em relacionamentos clientelistas tradicionais. Muitos
povos indígenas são assistidos por igrejas – católicas
e evangélicas – e por Ongs, com ou sem auxílio de
recursos externos. Em muitos casos a Funai pouco intervém.
O processo de relacionamento interétnico no Brasil ficou por demais
complexo e diversificado. É provável que menos de 30% das
funções de uma política indigenista estejam sob a
égide da Funai. Cada órgão estatal faz sua própria
política indigenista, cada Ong e cada confissão religiosa,
atua com seus próprios métodos, com a aceitação
parcial ou total dos povos indígenas. Entretanto, quando falha
qualquer um desses responsáveis diretos pelas demais 70% das funções
indigenistas existentes, o ônus recai, injusta e pesadamente, sobre
a Funai.
Dar-se conta disso é essencial para que a opinião pública
entenda o que se passa verdadeiramente no relacionamento interétnico
brasileiro.
Longe de nós qualquer pretensão de conduzir o enfoque da
Imprensa para esta ou aquela direção. Mas nos reservamos
a prerrogativa de recomendar, por dever de ofício, que esse aspecto
da complexa questão indígena seja mostrado claramente, dissolvendo
assim as ilusões passadas.
O Estado brasileiro não quer transformar o índio em não-índio;
quer que ele seja autônomo cultural e politicamente e que angarie
o respeito próprio de sua participação no sentimento
da nacionalidade brasileira. Como obter essa autonomia, sem também
ser autônomo economicamente, é uma impossibilidade sociológica
e política reconhecida desde os gregos antigos.
O desafio está lançado para o Brasil. É um desafio
específico para os antropólogos brasileiros e do mundo inteiro:
como compatibilizar uma economia igualitária diante do desafio
da modernidade?
A política indigenista do Governo Lula encara esse desafio de frente,
mesmo sabendo de suas dificuldades, e conclama a todos os de boa vontade
a se unirem nesse esforço intelectual e político de grande
importância para a continuidade da diversidade étnica e cultural
em nosso país.
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