Entrevista do Presidente da Funai, Mércio Gomes, a Rede Brasil
Sul
RBS - A questão fundiária é hoje a maior causa de
violência entre índios e não índios, sobretudo
os madeireiros, produtores rurais e mesmo seringueiros. A Funai tem diante
de si um dos seus maiores desafios, que é regularizar a situação
das terras indígenas em todo país, mesmo com um dos menores
orçamentos federais. A expectativa do governo é de que pelo
menos 12% das terras do território estejam nas mãos das
comunidades indígenas até o fim do mandato do presidente
Lula. Para falar sobre esse assunto, o presidente da Funai, Mércio
Pereira Gomes, concedeu entrevista ao programa Bom Dia Notícias
da Rede Brasil Sul (RBS), na última quinta-feira, dia 2 de outubro
de 2003.
RBS - Presidente, o senhor tem aí um desafio
grande e um dos menores orçamentos para enfrentá-lo. Como
o senhor vai resolver esse problema?
Mércio Gomes - Você falou que a Funai tem um dos menores
orçamentos do Governo Federal, mas para a questão de demarcação
de terras e os estudos originários nós temos um orçamento
razoável para até o fim do ano. Mas precisamos aumentar
esse orçamento para 2004, de modo que, em algum período
dos próximos três anos, nós tenhamos resolvido a questão
de demarcação de terras, da consolidação dos
territórios indígenas e, com isso, tenhamos cumprido um
dos deveres históricos da nação brasileira que é
o de ter as terras demarcadas de todos os índios, garantidas para
as gerações futuras, como um dos marcos da nossa dignidade
nacional.
RBS - Presidente, existe na questão da demarcação
das terras muitos conflitos entre os índios com não índios,
como madeireiros, produtores rurais e seringueiros. A verdade é
que existe uma pressão econômica para que o país cresça
inclusive com a expansão agrícola, ao mesmo tempo há
uma pressão da comunidade internacional ou mesmo dentro do próprio
governo para que se reconheça o direito do índio de ter
reconhecida sua área original. Como o senhor pretende conciliar
essas demandas aparentemente conflitantes?
Mércio Gomes - Eu acho que tem uma solução e essa
solução deve ser obtida de curto para médio prazo.
O Brasil inteiro reconhece que as terras indígenas são terras
legítimas, os povos indígenas que sobreviveram – 218
etnias – são reconhecidos em todas as pesquisas como sendo
a raiz do Brasil. Mas eles não são só a raiz. Eles
são o futuro do Brasil e a garantia dessa sobrevivência que
dá essa multiplicidade cultural ao Brasil. Ao mesmo tempo isso
demonstra que o Brasil é uma só nação, mas
cheia de culturas diferentes, característica que garante legitimidade
maior do Brasil perante as demais nações, e que dá
o caráter do Brasil. Tem uma frase do poeta Gonçalves Dias
que diz: “A base do caráter nacional são os povos
indígenas”. Diante disso, nós temos trabalhado com
essa base. Eu sei que muitas das terras que já foram demarcadas
eram as terras que tinham menos conflitos e agora nós estamos na
etapa mais difícil. Nós estamos dispostos na Funai a ir
com calma e com bom trabalho de relacionamento com aqueles que estão
em áreas indígenas, a quem respeitamos e queremos que saiam
com a certeza de que nós obteremos as indenizações
das benfeitorias de boa fé e o governo através de outras
organizações está interessado em recolocá-los
em meios equivalentes àqueles em que viviam.
RBS - Nós sabemos que a questão de
demarcação de terra indígena é um processo
importante, mas tem também aquele outro processo que é a
própria promoção da atividade do índio. A
Funai também se preocupa em promover a auto-sustentabilidade do
índio, para que ele não fique vulnerável a pressões
de outros interesses?
Mércio Gomes - Nós acreditamos que os principais problemas,
no Brasil, em todas as regiões onde há povos de economia
simples, economia de subsistência, são os de ajudar essas
economias a produzir o suficiente, e um pouco mais, que viabilizem seus
desejos de relacionamento com o mundo maior. Hoje em dia, os índios
não vivem só daquilo que viviam antes. Eles querem ter os
benefícios que fazem parte da sociedade moderna e ter autonomia
econômica. Agora, é uma coisa difícil e esse é
o desafio que nós antropólogos temos, que os indigenistas
brasileiros têm, e que o mundo inteiro tem. Em outros países
também existe esse problema, então nós queremos encontrar
uma solução. A Funai está disposta a buscar essa
solução a coordenar a busca dessa solução.
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