“Os índios foram o instrumento
de quanto aqui se praticou de útil e grandioso; são o
princípio de todas as nossas coisas; são os que deram
a base para o nosso caráter nacional, ainda mal desenvolvido,
e será a coroa de nossa prosperidade o dia da sua inteira reabilitação”
Gonçalves Dias, 1849
Mércio Pereira Gomes
Antropólogo, autor do livro “O Índio na história”
(Vozes, 2002) e Presidente da Funai.
Há 500 anos os mais de 600 povos que habitavam o território
que hoje constitui a República Federativa do Brasil somavam cerca
de cinco milhões de pessoas. Grosso modo, um milhão eram
os Tupinambá (com várias denominações locais)
e os Guarani que viviam na Mata Atlântica e falavam um língua
comum, conhecida como tupi-guarani; três milhões viviam
na floresta Amazônica, de modo mais intenso nas margens do grande
rio; e 1 milhão viviam nos cerrados, campos, agrestes, caatingas
e pantanais, uma diversidade cultural e lingüística compatível
com a nossa reconhecida diversidade biológica. Os Tupinambá
e Guarani sofreram o peso demolidor do primeiro século de colonização.
Uma grande parte morreu de doenças trazidas pelo europeu, especialmente
a varíola e suas congêneres, bem como as doenças
respiratórias; outra parte substancial foi assassinada em expedições
de guerra a mando das autoridades da Coroa; e outra foi absorvida pela
sociedade colonial como mestiços biológicos e mestiços
culturais – e que hoje constituem a base social da cultura brasileira.
Igual infortúnio e equivalente contribuição à
formação da sociedade brasileira deram os índios
do interior – genericamente chamados de Tapuias durante a Colônia
– e os índios da Amazônia.
Ao final, por volta de 1955, restavam somente cerca de 120.000 índios.
Muitos historiadores, cientistas políticos e antropólogos
consideram que, do ponto de vista do índio, o processo colonial,
como estrutura de dominação político-econômica
e alienação cultural, continua até os dias de hoje.
Estes afirmam ainda que essas estruturas se estendem não somente
para a maioria do povo brasileiro, quanto para a nação
brasileira em si diante do sistema econômico globalizante da atualidade.
Entretanto, algumas mudanças de longo alcance vêm se delineando
no Brasil, nos últimos anos, que nos levam a crer que o processo
colonial está nos seus estertores e que o quadro de injustiça
vem sendo abalado em seus fundamentos ideológicos. Portanto,
podemos projetar para um futuro próximo a realização
daquilo que foi vislumbrado pelo sentimento poético de Gonçalves
Dias, que enxergava o índio como a base de nossa formação
sócio-cultural e indivíduo de fundamental importância
para o engrandecimento da nação.
São sinais de novos tempos. Hoje existem no Brasil 220 povos
indígenas que somam 410.000 pessoas, ou mais de três vezes
a população de 40 anos atrás (atualmente, os índios
crescem a uma taxa de 3,5% ao ano, apesar de ainda sofrerem uma alta
mortalidade infantil). Soma-se a isso o fato de, desde 1910 os governos
brasileiros, baseados no apoio do povo brasileiro aos direitos indígenas,
vêm reconhecendo e demarcando as terras indígenas –
apesar das vozes minoritárias contrárias, que mal contêm
seu espírito colonialista e sua infidelidade ao espírito
aberto e generoso da cultura brasileira.
Já foram demarcadas 420 terras indígenas, faltando ainda
cerca de duas centenas. Ao final desse processo, o Brasil terá
12,5% do seu território reconhecidos aos povos indígenas.
Haverá honra maior para um país do que resgatar dívidas
históricas que lhe permitiram existir, crescer e se posicionar
diante do mundo como um país novo?
O governo do presidente Lula está encarando esse desafio com
a humildade que a grandeza da tarefa exige; com abnegação
e destemor diante das críticas – cujas vozes confusas vêm
de vários quadrantes. Sabe que o povo brasileiro está
ao seu lado porque esta tarefa é essencial para a ascensão
do país perante o mundo.