Informações tendenciosas da imprensa de Rondônia alimentam tensão entre índios e "brancos"
 

A imprensa de Rondônia, desde a extrusão garimpeira da Terra Indígena (T.I.) Roosevelt, tem, sistematicamente, veiculado notícias inverídicas contra os índios Cinta Larga. Aparentemente, esse noticiário tendencioso atende a interesses de garimpeiros - , representados pelo seu sindicato – de financiadores do garimpo e mesmo de grupos supostamente ligados ao crime organizado, para forçar a reabertura do garimpo, que tantos males causou aos índios e suas comunidades.

A respeito da real situação dos índio, e das comunidades indígenas envolvidas, ouvimos o servidor Walter Blos, coordenador do Grupo Tarefa instituído pela Funai, com vistas a promover todas as ações necessárias à extrusão dos garimpeiros e à necessária proteção da Terra Indígena Roosevelt.


- Qual a real situação na Terra Indígena Roosevelt?

Walter Blos – O principal fato a ser destacado, após as ações promovidas pelo Grupo Tarefa, é a recuperação da auto-estima, dos índios Cinta Larga. Isso de deu em função da implementações de ações na área, tais como oficinas de educação, segurança alimentar, fomento às atividades produtivas, proteção territorial, sem esquecer a comunicação social, importante no sentido de esclarecer a sociedade envolvente sobre os índios Cinta Larga, o direito à terra em que vivem, desde tempo imemoriais e, principalmente, o malefício causado pelos garimpeiros, tanto ao meio ambiente quanto à própria comunidade indígena.


- Após a extrusão garimpeira, o que mudou na T. I. Roosevelt?

Walter Blos: - O reflexo dessas ações sobre os índios Cinta Larga, não apenas da Terra Indígena Roosevelt, foi, no primeiro momento, a abundância de alimentação. Sem o garimpo, grande quantidade de roças, tanto comunitárias quanto familiares, tradicionais também daquele povo indígena, voltaram a ser feitas, em todas as aldeias. Quando existia o garimpo, por estarem envolvidos, os índios deixaram essa prática, fato que gerou dependência econômica dos financiadores do garimpo.


- Esse fato influenciou positivamente outras comunidade indígenas da região?

Walter Blos: - Claro. A nova postura dos índios - o fim da dependência - tem repercutido positivamente em todas as terras indígenas dos Cinta Larga, tanto em Rondonia como em Mato Grosso. Outro fator positivo advindo da extrusão dos garimpeiros, foi a união dos índios. Antes, com os garimpeiros, apenas poucos indivíduos, principalmente as lideranças, eram beneficiados, e isso gerou dissidência entre as comunidades. Hoje os índios estão organizados em associações e as aldeias estão sendo beneficiadas com projetos de auto-sustentação, como o de piscicultura, já implantado, na Aldeia Roosevelt.


- Como tem repercutido, na região, a nova postura dos índios?

Walter Blos: - A postura dos Cinta Larga de não permitir mais a entrada de garimpeiros tem afetado grupos de não-índios ligados ao garimpo, principalmente os financiadores do garimpo, além de grupos supostamente ligados ao crime organizado. E, em função da não permissão de garimpagem, esses grupos têm promovido verdadeiras campanhas para denegrir a imagem tanto dos índios quanto da Funai. Mas essa situação de insegurança, criada pela veiculação de notícias falsas, pela imprensa regional, ao contrário do que esperavam os grupos mencionados, apenas reforçou a nova postura dos índios Cinta Larga, que estão decididos a não permitirem mais o acesso de garimpeiros às suas terras. E para que garimpeiros não adentrem mais à terra indígena, os próprios Cinta Larga se encarregam de fazer a vigilância interna da área, enquanto a Funai e a Polícia Ambiental de Rondônia fazem a fiscalização no entorno.


- O que pensam autoridades regionais?

Walter Blos: - Foi instalada pela Assembléia Legislativa de Rondônia uma CPI específica para investigar o garimpo na T. I. Roosevelt. Uma Audiência Pública já foi feita na cidade de Espigão do Oeste, município em que está situada a Terra Indígena Roosevelt. Também a Comissão de Direitos Humanos, da Câmara dos Deputados, já esteve na área, conversou com os índios e viu que as notícias veiculadas na imprensa local eram totalmente inverídicas, mentirosas, e que não havia, como está sendo noticiado, nem mil garimpeiros ameaçando entrar, nem garimpo no interior da terra indígena. Aliás, é bom informar que, quando da ida da referida comissão, houve um movimento por parte de garimpeiros e seus financiadores para impedir que ela chegasse à terra indígena.


- O que os índios esperam dessa Comissão de Direitos Humanos?

Walter Blos: - Todos esperam que o relatório dessa Comissão sirva como subsídio à CPI da Assembléia Legislativa. Além da Comissão da Câmara Federal, a Comissão de Direitos Humanos da ONU irá à área, no próximo dia 16 de novembro de 2003. Tudo isso poderá contribuir para esclarecer de vez a situação na terra indígena e desmascarar todos os detratores dos índios, inclusive a imprensa tendenciosa de Rondônia.


- O que o Sr. tem a dizer sobre a ocorrência de morte de garimpeiros no interior da T. I. Roosevelt?

Walter Blos: - Todas as notícias que estão sendo publicadas na imprensa local são, além de inverídicas, tendenciosas. A intenção é apenas a de colocar a opinião pública contra os índios. Não se pode afirmar, em hipótese alguma, que as mortes ocorridas no interior da terra indígena tenham sido praticadas por índios Cinta Larga. O mais provável é que sejam resultado de brigas entre os próprios garimpeiros. Foi instaurado um Inquérito Policial Civil para apurar essas mortes. Mas tal inquérito poderá estar fadado ao fracasso, porquanto não foi feita a perícia nos corpos, nem no local em que foram encontrados. Os policiais apenas filmaram. O que se espera é que não haja manipulação do processo investigatório, no sentido de incriminar os índios, em função do“ bombardeio” de notícias falsas, pela imprensa regional, notadamente Diário da Amazônia e Folha de Rondônia.


- A Funai já adotou alguma medida quanto à essa incitação da comunidade local, pela imprensa, contra os índios Cinta Larga?

Walter Blos: - Tanto a Funai quanto as comunidades indígenas já entraram com representação no Ministério Público Federal contra aqueles que estão insuflando a opinião pública contra índios e contra a própria Funai.


- É real o clima de guerra que se noticia?

Walter Blos: - De fato, há clima de guerra entre garimpeiros, posto que são instigados, como já disse, por pessoas ou grupos e pelo próprio sindicato dos garimpeiros, com a intenção única de reabrir o garimpo. E, para isso, usam de todos os meios para denegrir a imagem dos índios e fragilizar a Funai.


- Houve, de fato, mil garimpeiros fechando a estrada que dava acesso à terra indígena?

Walter Blos: - Não. O que foi veiculado pela imprensa, sobre a quantia de mil garimpeiros, era totalmente inverídica. A própria Polícia Federal, na ocasião, constatou serem apenas cerca de 150 garimpeiros. Mas como já disse, os grupos interessados no garimpo manipulam informações para gerar o clima de tensão e colocar a opinião pública contra os índios.


- Não há perigo de os índios permitirem, novamente, a entrada de garimpeiros em suas terras?

Walter Blos: - Além das ações emergenciais desenvolvidas pela Funai, para fixar os índios nas aldeias, o próprio clima de tensão contribuiu para que se alcançasse esse fim. Os índios não querem mais o garimpo e deixaram de ficar circulando nas cidades próximas, como acontecia antes.

- Há pistas clandestinas na T. I. Roosevelt, como foi noticiado pela imprensa local ou regional?

Walter Blos: - Não. Não há pistas clandestinas no interior da T. I. Roosevelt. As pistas que existem, três ao todo, foram construídas, pela própria Funai, nas aldeias Tenente Marque, Roosevelt e Aldeia da Ponte, para facilitar o atendimento às comunidades dessas aldeias.

- Neste momento, como está a ação da Funai para a proteção dos Cinta Larga?

Atualmente, mantemos três barreiras de vigilancia no entorno das terras indígenas Roosevelt e Parque do Aripuanã, tendo 15 servidores da FUNAI e 15 Policiais Ambientais. Não permitimos o ingresso de não índios nas áreas. As associações indígenas encaminham documentos solicitando o ingresso de algum não índio e indicam qual serviço vai ser efetuado na aldeia e/ou se o branco é casado com índia ou índio.

Temos uma relação dos não indios que estão nas aldeias. Estamos realizando um diagnóstico sócio economico das aldeias; estamos
formando uma equipe para implementar o PRAD (Projeto de Recuperação de Área Degradada) na região do garimpo; mantemos o programa de segurança alimentar, pois ainda estamos em fase de transição, onde há a quebra da dependência econômica dos financiadores do garimpo; o projeto de piscicultura vai ser inaugurado no dia 20 de novembro com a colocação de 6.000 alevinos.

Ainda no programa de proteção territorial, a FUNAI ingressou com ação judicial contra o sindicato dos garimpéiros e jornais. As Associações Cinta Larga farão o mesmo, pois as notícias nos jornais são 100% caluniosas.

 
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