Índios em casa
Casa do Índio/RJ supera dificuldades
 
Leilane Alves

Tratamento médico, comida, direito à acompanhante e muitas amizades. Isso faz parte do que é oferecido na Casa do Índio da Ilha do Governador, Rio de Janeiro. A casa serve como Centro Especial para índios de diversas etnias que precisam de tratamento e acompanhamentos médicos, ou apresentam problemas físicos, mentais ou neurológicos que os impossibilitam de viver nas aldeias de origem. Fundada em 1968, a Casa do Índio do Rio foi a primeira das 40 criadas em todo o país a receber o apoio da Fundação Nacional do Índio (Funai). Em 1999, passou a ter suas ações atreladas a FUNASA, criando uma série de contestações, porque sua especificidade é atender a portadores de deficiências, que não são considerados doentes.

A Casa do Índio da Ilha do Governador abriga atualmente 41 pessoas. Eunice Cariry é a responsável pela fundação e direção do local. São quase 45 anos dedicados a cuidar de índios que necessitam de tratamento especial. De crianças a pessoas de terceira idade, todos recebem atendimento adequado. Ediciane Veríssimo, de um ano e quatro meses, chegou na casa em julho. Ela nasceu com deficiência visual , realizou severo tratamento para desnutrição protéica e já esta agendada para exames oftalmológicos com o benemérito Rotariano Dr.Gilberto dos Passos. Da etnia Gurarany de São Paulo, a menina é chamada pelos funcionário de TAKUÃ, nome relacionado a sua etnia. Atualmente, é o único bebê residente na casa.

Tatiane de Paula, com 07 anos de idade, deu entrada na casa no ano 2000. Portadora de paralisia cerebral , recebe cuidados permanentes e especiais (não deambula e não fala). Freqüenta Escola Especial para entretenimento, estimulações, e assistência especial neurológica. Pertencente a etnia Guarani do Rio Grande do Sul. Seus genitores (JOÃO e CLAUDETE de PAULA), regularmente telefonam para saber notícias e aguardam oportunidade de vir ao RJ para visitá-la.

Cinco crianças em idade escolar moram na Casa do Índio e, graças ao esforço da equipe, conseguiram vaga para receber ensino especial. Vanderlei, por exemplo, da etnia Guarani de São Paulo, está na casa desde 1995. Ele sofre de deficiência neurológica, tem 10 graus de miopia e é albino. Estudou três anos em escola normal (ACM/ILHA), no entanto, por dificuldade de aprendizado, ingressou no ensino especial em 2002. Tatiane, 8 anos, e Cristiane, 12, também estão recebendo ensino diferenciado na Escola Municipal Especial Rotary. Os três são acompanhados por um médico neurologista também benemérito da casa Dr. ROBERTO TROVÃO e recebem tratamentos adequados. A situação dessas crianças traduz totalmente a finalidade da Casa do Índio: ser a moradia de índios com problemas médicos que os impossibilitem de viver nas aldeias de origem. Este ano, os três participaram do desfile da parada cívica de sete de setembro na escola.

João Fábio Kaxinawa morou na Casa durante 11 anos. Chegou com 5 anos para fazer um tratamento renal, mas descobriu que precisava de um transplante de medula. Conseguiu o transplante e recebeu alta médica aos16 anos, idade que voltou para sua aldeia. Retornou três vezes ao Rio para fazer revisão médica. Agora, aos 20, depois da última revisão, vai definitivamente para seu lugar de origem, na Amazônia. “Ele passou vários anos aqui com a gente e hoje está até casado”, diz Cariry, entusiasmada com a alta de João Fábio.

Moisés e Joel, Apurinãs do estado do Acre, estão na casa há mais de três anos. Joel tem artrite reumática juvenil e o irmão Moisés se propôs a acompanhá-lo no tratamento. Ambos chegaram no Rio em meados 1998. Permaneceram por quase três anos sem visitar a família em Rio Branco. Só em agosto de 2002 voltaram à terra natal e mataram as saudades. Para continuar o tratamento, Joel precisou voltar para a Casa em janeiro de 2003. O irmão também voltou. Para passar o tempo no Rio, Moisés costuma fazer instrumentos musicais com ferramentas improvisadas. Contudo, Dona Cariry tem planos para ele. No próximo ano, quer matriculá-lo no ensino fundamental “para ele aproveitar o tempo concluindo o primário”, explica.

A Casa funcionou por aluguel no até 1980. A partir da visita do Exmo. Ministro do Interior Mauricio Rangel Reis, que, entusiasmado com o trabalho desenvolvido pela Casa do Índio, deixou recursos financeiros para que a FUNAI comprasse o precário imóvel que habitavam por aluguel e as três casas a ela geminadas. E, graças as doações, à solidariedade dos moradores da Ilha do Governador, ao comandante civil Manoel Guerra Borges, voluntários e aos próprios índios residentes e que a nova casa foi construída, sem nenhum recursos financeiros do Governo Federal. Suas instalações de hoje são totalmente adequadas para atender a demanda de todos os hóspedes. Tanto que existem até acomodações para os acompanhantes dos índios.

Sem a colaboração da comunidade: igrejas, moradores e voluntários, a Casa do Índio do Rio de Janeiro estaria hoje quase sem recursos para manter os internos. Depois que o serviço de saúde indígena passou a ser compartilhado com a Funasa, os que participaram da empreitada de construção e que acompanham a história da casa só têm apresentado queixas ao decreto de 1999. Manoel Guerra Borges, que faleceu ano passado, declarou em entrevista à Funai, no final de 2001, que a Casa não deveria ser propriedade de ninguém, só dos índios que a construíram e necessitam dela.

Eunice Cariry abomina e diz que “A malfadada Medida Provisória 1911-8/99 representou um seqüestro de bens da Funai” vez que diante do gerenciamento geral apresentado transformasse a FUNAI como se fora um grande Hospital Nacional, num flagrante esquema perverso de protecionismo pelos negociadores do “PODER DOS ÍNDIOS”. A Casa do Índio/RJ é um imóvel atípico, construído pela comunidade e pelos índios , em MUTIRÃO, inclusive pelos deficientes Cariry afirma Ter até documentos probatórios. Ela também reclama do atraso no envio de alimentação pela FUNASA, que, há vários meses, vem se esvaindo. Prepara 02 (dois) frangos por dia para o almoço e jantar de 40 pessoas.

Dia 21 de agosto a Casa do Índio se pronunciou oficialmente para a Funasa alegando que não tinha mais leite para oferecer aos internos. A Funasa do RJ alegou não ter recursos financeiros, coisa que só teria após o dia 26. A Casa continua sobrevivendo graças às doações. Cariry fica perplexa ao constatar que “enquanto nosso Presidente da República, num ingente esforço defende a fome zero no país, a FUNASA desastrosamente submete os índios a mais penosa das privações, além de outros desatinos e impropriedades administrativas. Basta, constituir-se comissões – devidamente qualificadas e isentas – para averiguar a situação em que vivem os índios no Brasil.

 
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