Brasil e Canadá: Unidos na defesa da causa indígena
Os dois países formam parcerias para incrementar políticas indígenas
MARINA SIMON

 

O Brasil e o Canadá vêm realizando, desde 2000, vários intercâmbios de experiências relativos à questão indígena de ambos países. Para o Brasil, há um grande interesse na experiência indígena canadense pelo fato desse país possuir uma história bem sucedida de políticas indigenistas.

No Canadá, a questão indígena sempre foi tratada como prioridade. Exemplo disso é a existência, desde 1966, de um ministério específico para tratar do assunto, o Ministère des Affaires Indiennes e du Nord Canadien – Ministério de Assuntos Indígenas e do Norte Canadense. Um ponto que merece atenção é a quantidade de indígenas que habitam o Canadá: mais de 900 mil, numa população de cerca de 30 milhões de habitantes.

O contato mais estreito entre os dois países começou em outubro de 2000, quando os líderes indígenas do Xingu, Aritana Yalawapiti e Afukaka Kuiruru foram ao Canadá a convite de Phil Fontaine, chefe da Assembléia das Primeiras Nações, para iniciar um processo de trocas de conhecimentos culturais.

Três anos depois, a embaixada do Canadá enviou uma delegação governamental ao Brasil, composta por 7 pessoas – incluindo o ministro de Assuntos Indígenas e dois índios canadenses – com o objetivo de trocar idéias e experiências com funcionários brasileiros, ONGs, universidades e lideranças indígenas. Os temas tratados abordaram saúde, desenvolvimento econômico, educação e preservação da cultura indígena.

Em Brasília, a delegação foi convidada a fazer uma palestra na Funai. Na ocasião, o grupo trocou experiências sobre a questão indígena com funcionários da Fundação e convidados. Discutiram, ainda, sobre direitos territoriais e a relação entre organismos governamentais que tratam da causa indígena com as organizações indígenas não governamentais.

Também na capital, a delegação conversou com representantes da Fundação Nacional de Saúde (Funasa). Após esse encontro, percebeu-se que os ministérios da saúde de ambos os países têm estruturas muito semelhantes e provavelmente devem passar pelas mesmas situações no que concerne ao tratamento da saúde indígena. Agora, os dois órgãos procuram meios de trocar os frutos das discussões e desenvolver uma ajuda mútua para melhorar os serviços oferecidos aos índios.

Ainda em 2003, foi realizada uma reunião, na embaixada do Canadá, para discutir a educação indígena. Participaram desse encontro, representantes da Funai, da Universidade Estadual do Mato Grosso (Unemat), do Ministério da Educação (MEC), da Universidade Federal de Roraima (UFRR), a índia Francisca Novantino Pareci (única índia membro do Conselho Nacional de Educação), o embaixador canadense no Brasil, Jean Pierre Juneau, e o responsável por assuntos indígenas da embaixada do Canadá.

Neste debate ficou acertada a formação de um grupo de trabalho intergovernamental para permitir um fluxo constante de informação entre os dois países. E, por fim, a delegação se encontrou com os organizadores dos Jogos Indígenas para conversar sobre a participação canadense no evento, a ser realizado em outubro de 2003 na Praia da Graciosa, em Palmas, Tocantins.

Mas as trocas não pararam por aí. O Canadá já forneceu US$ 33 mil para ajudar os trabalhos desenvolvidos pelo Instituto Sócio-Ambiental, uma organização não governamental que, entre outras coisas, trabalha com os indígenas do parque do Xingu desde 1996. Até agora o Instituto já formou 57 professores que ensinam 1154 alunos em 30 escolas do Xingu.

Além disso, o Brasil pode também se beneficiar de tecnologia e conhecimento canadense para efetuar projetos de cartografia cultural nos territórios indígenas brasileiros. Isso graças a um encontro coordenado pela embaixada do Canadá e pelo Memorial dos Povos Indígenas, realizado no Xingu com a participação de representantes canadenses da Assembléia das Primeiras Nações e lideranças indígenas, como o cacique Aritana. Todas essas visitas abriram caminho para futuras cooperações entre representantes governamentais e ONGs de Brasil e Canadá.

Outra iniciativa muito interessante que está sendo acolhida pelo governo canadense (via embaixada do Canadá) é o projeto de alfabetização de crianças no Baixo-Xingu. A parceria teve início em fevereiro de 2003, num encontro entre o influente e respeitado cacique Raoni, que mantém contato freqüente com os povos indígenas do Quebec e Juneau. Este projeto pretende ensinar crianças a ler e escrever na língua materna, o que permitiria transcrever a língua oral dos Kayapó. (Marina Simon)

 
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