Os índios contadores de "causos"

Quem dentre nós, quando crianças, nunca ouvimos, e até pedíamos que nos contassem estórias? E eram tantas, e tão bonitas! Pois bem! Também os povos indígenas têm as suas estórias, e os seus contadores. A diferença é que, entre esse povos, desde tempos remotos, a função dos "causos" era, e continua sendo, a perpetuação da história de sua origem, dos mitos, das crenças e, até mesmo da idéia de um Ser superior que tudo criou, enfim, da realidade indígena. E hoje, entre esses povos, há a preocupação de que essa concepção da criação do universo, do homem, dos animais, das plantas, dos rios, seja preservada.

O texto abaixo é resultado da conversa que teve o jornalista Nelson Albuquerque, do Diá rio do Grande ABC-SP, com o índio Daniel Munuruku, um contador de estórias, que retrata essa preocupação:

"Seres da floresta" Daniel Munduruku quer que as pessoas vejam o povo indígena com outros olhos. "Temos uma cultura bonita e rica que precisa ser respeitada. Minha intenção é levar o imaginário da criança da cidade o fato que o indígena vive entre seres e espíritos da floresta", afirma o índio, que morou com o seu povo, no Pará, até os 15 anos. Hoje, está em São Paulo, é filósofo, escritor e contador de histórias.

Daniel é do povo Munudurku (que significa Formigas Gigantes), mas traz relatos de vários povos indígenas. Preocupa-se também em esclarecer distorções. "No Brasil não existem tribos de índios (grupos derivados de povos). O Munduruku, por exemplo, é um povo integral", diz. Outro cuidado é o de não deixarem usar o termo lenda. "Para o indígena não existe lenda. O curupira é muito real", afirma.

O mesmo respeito que quer para seus pares, Daniel Munduruku demonstra pela gente urbana. "Ainda não tive coragem para contar histórias da cidade. Não conheço os códigos daqui. Não quero transformar em lendas essas histórias", diz.

Suas inspirações são os próprios mitos indígenas. O surgimento dos cães é um dos preferidos. Um estrangeiro dorme com uma índia e desaparece, deixando-a grávida. Ela dá à luz três cachorros. O fato provoca briga na comunidade e ela foge com os filhos. Mãe não olha cara. Os filhos se tornam grande caçadores e a comunidade a recebe de volta. "Segundo Daniel, uma história como essa pode levar horas. É com o ritmo da repetição que as pessoas vão aprendendo", diz. O contador costuma se apresentar em escolas, como na última quinta-feira, no Colégio Arquidiocesano de São Paulo. Entre seus livros estão Coisas de Índio, O Segredo da Chuva e O Sinal do Pajé. Mais sobre seu trabalho pode ser visto na internet (www.danielmunduruku.com.br)".

 
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