Sr.
Governador de Roraima, Flamarion Portela, Sr. Leôncio Brito, Sr.
Márcio de Freitas, Srs. Deputados, Sras. Deputadas.
Estou muito honrado com o convite feito pelo Deputado
Moka, para estar aqui presente, para compor a mesa. Como ele mesmo já
falou, eu me sentiria, também, muito honrado em participar de um
debate específico da questão indígena no Brasil.
Esta é uma questão de caráter nacional, está
no centro de nossa nacionalidade, é uma coisa permanente; não
é mais uma questão passageira.
Então, nós temos que encarar isso, diante do Brasil e diante
do futuro. Meus comentários aqui serão, portanto exclusivos
à questão de Roraima, que é o principal item desta
reunião.
Eu
quero, em primeiro lugar, como é a primeira vez que venho a uma
Comissão no Congresso, agradecer a muitos deputados os votos de
boas vindas na Funai, os votos de sucesso.
Muitos têm me falado, a grande maioria das pessoas tem me falado
quão árdua é a presidência
da Funai, um dos cargos mais árduos que há no País,
no Governo Federal.
De fato, a minha presença não tem mais que 70 dias na casa.
Sou antropólogo de longa data, tenho trabalhado com índios
há muitos anos, tenho escrito livros sobre a questão indígena
no Brasil. De modo que eu sabia o que ira acontecer, e tinha conhecimento
de causa. De fato, quando você senta na cadeira, e começa
a dialogar com as várias partes que fazem parte da questão
indígena, você vê que a intensidade do trabalho é
muito grande.
Eu me coloquei ao Ministro Márcio Tomás Bastos como um soldado
da causa indígena, como uma pessoa dedicada e digo a todos que
é, para mim, uma honra ser presidente da Funai. Eu não temo
o trabalho, a discussão, não temo as controvérsias
que existem dentro do trabalho.
Uma coisa que eu quero dizer, em termos gerais, é o seguinte: durante
muitos anos a política indigenista brasileira, que já veio
do império, veja bem, nós não estamos aqui só
com o SPI e o com o positivismo brasileiro, a política brasileira
vem do império, vem de José Bonifácio, o primeiro
que escreveu sobre a necessidade de ter uma política específica
para os povos indígenas.
Gonçalves Dias, que muitos dizem ser só um indianista, um
grande poeta que fantasiou os índios, escreveu uma das coisas mais
lúcidas sobre a questão indígena brasileira: "a
coroa da prosperidade do índio do Brasil será o dia da reabilitação
dos índios".
Então, o Brasil tem dentro da sua causa maior, mais profunda, no
cerne da sua nacionalidade, a questão indígena. Não
podemos fugir a isso. Os índios estão aqui no Brasil, foram
a raiz, a nossa raiz, e durante muito tempo, toda política brasileira
foi feita no sentido de que os índios iriam se acabar.
Antropólogos, indigenistas, sertanistas, políticos, grandes
estadistas brasileiros sempre achavam que os índios iriam se acabar,
seja por morte morrida, seja por morte matada. Seja pelo processo de aculturação,
ou seja pelo processo de exclusão de suas terras, seja pelo processo
caboclisação.
Mas a questão, senhoras e senhores, é que desde a década
de 70 os índios vêm crescendo em população.
E esse crescimento é sustentável, não é um
crescimento provocado por uma melhoria rápida das condições
de saúde, que existe no Brasil, do crescimento de defesas imunológicas
contra as doenças; é um crescimento sustentável.
E esse crescimento tem a ver, também, com a nacionalidade brasileira,
com a aceitação, pelo povos, dos índios como parte
do Brasil. Os índios são o presente. E digo mais, os índios
são o futuro do Brasil.
Nós temos a certeza que essas grandes áreas indígenas
que foram demarcadas, que estão sendo demarcadas, e que serão
demarcadas e homologadas, o sejam nesse governo. É o que esperamos.
Mas se não for neste, que seja no próximo governo, ou seja
no governo seguinte. O que nós temos que ter certeza, como brasileiros,
é que as terras indígenas serão inexoravelmente demarcadas.
Não há saída diferente dessa. Esse é um processo
que faz parte da consciência nacional; não é uma questão
simplesmente de governo. É uma questão da nacionalidade
brasileira, e nós não podemos fugir dela.
Os índios estão aqui para ficar. Eles têm um desenvolvimento
sustentável, estão crescendo a um índice de mais
de 4,5% da população brasileira. Têm carências
imensas de readaptação às condições
brasileiras em que vivemos, têm problemas de interação
social com o Brasil e têm problemas de interação econômica.
Desenvolver a economia indígena não é fácil,
porque todos nós sabemos, nós que somos marxistas, nós
que não somos marxistas, que para desenvolver uma economia, sempre
se necessita de uma "mais valia", e a "mais valia"
surge pela exploração. Como, então, desenvolver uma
economia, sem causar uma exploração, mantendo o princípio
de igualdade, que é o que prevalece entre as populações
indígenas? Esta é uma questão que nem antropólogos,
nem teóricos da sociologia e da ciência política ainda
sabem. Por isso, esta é uma questão que faz parte do desafio
maior da sociedade brasileira: como estabelecer a permanência dos
povos indígenas, a sua continuidade, a defesa dos seus territórios,
dentro do princípio em que mantenha o seu valor principal, que
é o valor do igualitarismo social.
E cabe a nós, da Funai, nós, do Estado brasileiro, nós,
da sociedade brasileira, nós, do mundo, pensarmos a questão
indígena, porque não é só no Brasil que isso
esta acontecendo, são em todos os povos, em todos lugares onde
a expansão da civilização ocidental deixou bolsões
de resistência, que está na Austrália, com os aborígenes
australianos, que existe no Canadá, que mais de 30% do seu território
demarcado e reservados para os povos indígenas, nos Estados Unidos,
onde os índios foram derrotados, estão em crescimento -
são mais de dois milhões atualmente - na Colômbia,
no Peru, enfim, em todos os lugares o processo de crescimento dos povos
indígenas é permanente.
A civilização nossa, graças a Deus, é uma
civilização mestiça, não só no sangue,
mas na cultura e isto é o que vai dar a cara principal do Brasil
no futuro. Nessa época de globalização, em que as
culturas estão sendo homogeinizadas, destruídas pela força
de uma cultura que domina a terra, uma sociedade como a brasileira, que
vai investir contra isso, é que vai dar a nossa característica,
o nosso modo de ser, a nossa capacidade de resistir e enfrentar esse período
grave de globalização e de homogeinização
cultural.
A presença dos índios, a presença de territórios
indígenas, a presença de 12 a 13% do território brasileiro
como sendo terra indígena, é uma reserva, uma garantia para
o futuro do País. Defender terras indígenas é defender
o futuro do País. Aqui, esta Casa é responsável,
não só pelo presente, pelas necessidades, pelos processos
sócio-econômicos atuais, mas é responsável
pelo futuro. E quando nós virmos o mapa do Brasil, saberemos onde
é que ainda tem floresta amazônica, onde é que tem
cerrado, caatinga, onde é que ainda tem pantanal. Poderão
ver os senhores que será nas terras indígenas. Então,
não se iludam com a necessidade atual. Nós temos que pensar,
também no nosso futuro. Esta é uma casa que deve saber que
o futuro do Brasil está na preservação de terras,
está na preservação de culturas diferenciadas, está
na constituição de uma idéia de mestiçagem,
que é uma idéia nobre que nós temos dentro da nossa
cultura.
Estas minhas palavras são palavras gerais. Se for preciso debateremos
casos específicos, os casos que acham injustiça, os casos
em que há conflito. Nós temos certeza que esses casos serão
resolvidos, mas serão resolvidos com a certeza de que o Brasil
necessita concluir a demarcação das terras indígenas.
Nós faremos o nosso esforço, nesse governo. Nós acreditamos
nesse Governo, no esforço desse governo. Se não der nesse,
será no próximo e, se não der no próximo,
será no que virá em seguida. Mas todos o governos brasileiros,
que fazem parte da nacionalidade brasileira, não deixarão
de cumprir essa tarefa, que é uma tarefa que vem sendo realizada
desde Rondon, desde D. Pedro II. Há algum tempo, como se esperava
que o índio fosse morrer, dava-se um pedacinho de terra. E falam
muito do Mato Grosso do Sul. Tem 9.550 índios vivendo em Dourados
em apenas 3.470 hectares, enquanto existem outras áreas que foram
demarcadas posteriormente, que tem mais solidez de consolidação
de território, de defesa de patrimônio genético brasileiro,
de defesa do meio ambiente brasileiro. Essas terras indígenas são
patrimônio da cultura brasileira, do Estado brasileiro, da sociedade
brasileira. Então, não podemos nos afunilar no pensamento
da atualidade. Nós, desta Casa, que é uma casa do povo brasileiro,
temos que pensar no futuro do Brasil. Muito Obrigado.
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