Foi
uma festa aguardada por mais de 20 anos. Teve cururi – a uva da
Amazônia–, beiju, peixe e paca moqueados, suco de bacaba
e açaí e muita conversa na aldeia Balaio, junto de lideranças
Tukano, Desána e Kuripáko para comemorar a declaração
da Terra Indígena Balaio e o prosseguimento do processo de demarcação
da área. Localizada dentro do Parque Nacional do Pico da Neblina,
próximo à fronteira da Venezuela, a T.I. Balaio foi declarada
de posse permanente dos povos indígenas da região por
portaria de 15 de dezembro de 2006, assinada pelo ministro da Justiça,
Márcio Thomaz Bastos. Ela está contígua à
T.I. Yanomami, e vem proteger ainda mais a bacia do Alto Rio Negro.
“Diversos obstáculos tiveram que ser superados dentro
do Estado brasileiro para o Brasil entender que a terra é de
vocês”, disse em discurso o presidente da Funai, Mércio
Pereira Gomes. Além de ser sobreposta a um parque nacional, Balaio
também fica na área de fronteira, que recebe proteção
especial do Exército brasileiro. “O Parque Nacional antes
era um problema para vocês, mas agora é só uma questão
de trabalhar junto, Ibama e Funai, meio ambiente e povos indígenas”,
afirmou o chefe do Parque Nacional do Pico da Neblina, Fábio
de Mello Osolins.
Para o líder Álvaro Tukano, passadas as festividades
e os trabalhos para a demarcação física, será
preciso fazer melhorias estruturais dentro da área. “Tem
que consertar a estrada, melhorar e refazer as pontes que estão
quase caindo, para a gente poder ir para São Gabriel da Cachoeira
quando precisar”, afirmou. Segundo ele, o acesso a São
Gabriel é essencial, ao menos, até que seja feita uma
escola dentro da aldeia. “Se os filhos de vocês usam computador
e aprendem direito na escola, os nossos também precisam aprender
a usar o computador e a estudar”.
De
São Gabriel da Cachoeira até a aldeia Balaio, o caminho
de três pela estrada de terra corta a mata alta como um túnel.
O verde é forte, com um brilho especial nessa época seca
do ano. A floresta é intacta. No trajeto, avistam-se pequenos
proprietários de terra, que não chegam a dez, até
a entrada do Parque Nacional e da terra indígena. De lá,
são quatro pequenas comunidades indígenas até chegar-se
ao Balaio: Poranga, Paritins, Iá Mirim e Rodrigo Cibele. Paritins
é habitada majoritariamente pelo povo Kuripáko, e as outras
por Tukáno e Desána, mas vivem ali também gente
Yepamashã, Kobéwa, Pirá-Tapúya, Tuyúka,
Baníwa, Baré e Tariáno. Com 255.823 hectares, sendo
contígua à T.I. Yanomami, e ao lado da T.I. Cué
Cué Marabitanas, em fase de estudo pela Funai, a região
pode se tornar o maior bloco de terras indígenas contíguas
do Brasil.
O Alto Rio Negro
No extremo noroeste do Brasil, que forma a tríplice fronteira
com a Colômbia e a Venezuela, região também conhecida
como “Cabeça do Cachorro”, corre o rio Negro, um
dos principais formadores do rio Amazonas. O conjunto de terras indígenas
localizadas na bacia do Negro totalizam 10,7 milhões de hectares,
isso sem contar Balaio. Lá vivem 17 etnias diferentes, além
dos Yanomami, falantes das línguas das famílias aruak,
tukano oriental, maku, a língua geral chamada de nheengatu, em
uma população de aproximadamente 25 mil pessoas.
Após
a recepção na aldeia Balaio e reuniões em São
Gabriel da Cachoeira na sede da Funai e da Federação das
Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), Mércio
Gomes visitou as comunidades de Pari Cachoeira e Iauaretê, habitadas
em sua maioria pelo povo Tukano. Essa foi a primeira visita oficial
por um presidente da Funai nessas comunidades. Os indígenas celebraram
a visita, reuniram-se com o presidente, apresentaram reivindicações
para serem mais atendidos pela Funai, e saudaram a demarcação
de Balaio, onde vivem parentes da população dessas duas
aldeias. Elas servem também de abrigo a dois pelotões
do Exército, uma relação intermeada pela Funai
e pela Foirn, que são responsáveis pela fiscalização
da fronteira com a Colômbia na Cabeça do Cachorro.